Que espaço ocupamos no mundo? Este mesmo, abarrotado de gente, que eu observo daqui, sob sol escaldante contemplando um mar azul, de poucas ondas, algo raro por estas bandas do litoral norte. Não me refiro apenas ao espaço físico, já escasso entre milhares de guarda-sóis que abrigam adultos e, pelo que percebo, cada vez mais crianças.
O espaço que ocupamos, além dos metros quadrados que nos cabem neste latifúndio, tem uma relevância muito maior sob o olhar socioeconômico e cultural. Quando nos locomovemos, para onde vamos? O que queremos preenchendo essas lacunas, brechas de vida, de sociabilidade, para as quais nem todos estão convidados?
Para além dos condomínios e resorts fechados, que proliferam cada vez mais por todo o litoral brasileiro, alguns até com praias particulares (como se isso fosse legalmente possível), há uma mensagem subliminar de medo e de exclusão ao mesmo tempo. São feudos, capitanias hereditárias para os que idolatram o Rei Capital.
Mais ou menos como os shoppings, as praias estão sendo loteadas para os que podem pagar por isso, mas acima de tudo, para os que não querem mais contato com uma sociedade violenta, sim, embora em desigualdade extrema com o que ali ostentam. Melhor afastar, se enclausurar em grades e muros, nem que para isso não se veja mais o mar, ainda que a uma quadra da areia.
Os rolezinhos, inicialmente organizados por jovens taxados como marginais (e provavelmente alguns se aproveitaram disso para reforçar ainda mais essa condição, como nos ditos movimentos de protestos ocorridos recentemente, onde os infiltrados eram de classe média ou alta e avacalharam mais do que reivindicaram o que quer que seja) ocupam o espaço de quem? E os ditos farofeiros que chegam à praia no final de semana incomodam a quem? Como permitiram a chegada dessa gente assim, de repente, sem ser previamente convidada? A quem eles mais perturbam? À ordem pública ou a você e a mim, que queremos estender o jardim da nossa casa aonde quer que vamos, seja na serra, na praia ou no shopping?
São questionamentos que me ocorrem aqui, à beira-mar, sentada tranquilamente, desfrutando de uma leve brisa, juntamente com tantas pessoas que se refrescam nesta orla do Oceano Atlântico. E penso que isso me basta por hoje, diante do sorriso dos gêmeos que, ao meu lado, correm para o colo do avô depois do banho de mar, saciando a sede com o suco servido ainda na mamadeira.
Logo adiante, um casal de idosos se abraça para não ser derrubado pelas ondas, aconchego mútuo cultivado vida afora. E não muito longe dali, um adolescente acerta uma bolada na pessoa que passa distraída e reclama da falta de educação do jovem que, sem querer, perturbou o sossego de quem não deveria ter circulado além de seu jardim.
A vida como ela é nos oferece isso e muito mais. Basta saber qual o espaço que ocupamos neste mundo e permitir que os outros possam ocupar o seu, lado a lado, talvez, nesta imensa faixa de areia lotada que se tornou este planeta e, do qual, não temos para onde fugir.
A não ser que você já tenha comprado sua passagem para Marte.
Esta postagem foi publicada em 24 de janeiro de 2014 e está arquivada em Paralelas.


