Texto: Vanessa Wagner
Em uma das primeiras tardes frias deste outono, deixei a redação do Panorama para cumprir uma pauta especial: entrevistar a amiga Ivoni Lauck, 64 anos. Já previa uma conversa aquecida pelo melhor chá da minha vida – e que saudade daquela doce acolhida materna! Três colheres de açúcar na infusão de camomila, erva-doce, poejo e cidró.
Ivoni é recepcionista e telefonista do Colégio Santa Teresinha há 50 anos. Neste mês, recebeu homenagem pelo jubileu de ouro; uma distinção que destaca seu trabalho e dedicação ao educandário. O reconhecimento profissional veio acompanhado por demonstrações de carinho de alunos, ex-alunos e comunidade escolar.
Chegada à escola aos 14 anos de idade, Ivoni recorda a aflição que antecedeu o primeiro dia na recepção do Santa: “Saí de Gravataí, minha cidade natal, com o objetivo de ser interna e trabalhar no colégio. Era 1966. Lembro da ansiedade para saber a função que desempenharia. A informação veio da irmã diretora Maria Sibylla Fritscher (em memória), eu seria recepcionista. Fiquei apavorada! Passei uma noite sem dormir pensando se daria certo”, relata, logo acrescentando que a identificação com a atividade foi imediata.
Neste momento da conversa, fomos interrompidas pela presença da irmã Nilda Souza. Senhorinha falante, já chegou me abraçando e tratou de revelar mais um pouco sobre a trajetória da entrevistada: “Eu era a responsável pelo internato quando a Ivoni veio morar aqui. Ela sempre foi bastante disciplinada. Uma lembrança que tenho muito viva é de quando fui apresentada ao namorado dela (Nelson Armando Lauck, com quem Ivoni é casada há 44 anos). Ele veio visitá-la no colégio, os dois estavam se conhecendo. Aproveitei a ousadia dele e indaguei sobre as intenções. Assumi uma postura de mãe”, rememora Nilda.
Ivoni enfatiza que o marido Nelson desenvolveu um convívio afetuoso com a irmã, retribuído na forma carinhosa que Nilda adotou para denominá-lo: “genro”. Da união com Nelson, nasceram dois filhos, Daniel Lauck, 33 anos, e Cristian Lauck, 32 anos, ambos formados pelo Santa Teresinha. A neta, Gabriela Lauck, dois anos, completa a descendência até o momento. A família também participou da reverência prestada pela escola no dia 12 de abril. “Foi uma surpresa emocionante”, Ivoni se comove.
O espaço da recepção do colégio tem vista para o pátio principal. Pela ampla vidraça Ivoni zela a rotina dos estudantes, ou “os filhos!” – como ela gosta de chamar. Uma receita acompanha essa relação de cuidado: a bebida quente e doce com propriedade de acalmar, confortar e curar. O ritual acontece há gerações, pelo menos três, segundo ela. “Quando os alunos não se sentem bem em sala de aula, pedem licença para a professora e vêm tomar meu chazinho. Chegam com indisposição, nervosismo pelos trabalhos, saudade dos pais, dor de amor… Ou, às vezes, só precisam de um respiro e carinho!”, explica.
O chazinho ganhou sala reservada. Ivoni prepara a bebida, escolhe palavras que também adoçam, dissolve as angústias dos alunos como açúcar no chá quente. “Todos saem curados! Os ingredientes são mágicos”, brinca, orgulhosa.Como diz o ditado: o bom filho à casa torna. Lá estava eu! Ex-aluna do Santa, eterna filha da Ivoni. É claro que me atrevi a pedir uma xícara de chá – e ele continua tão maravilhoso quanto na minha lembrança! Aquecida pelo encontro, me despedi com gratidão. Deixei o colégio sorrindo, na certeza de ter descoberto o ingrediente milagroso: amor de mãe.


