A tonalidade, a cor e o aroma são singulares e distantes de outras bebidas alcoólicas industrializadas. A cerveja artesanal tem o toque particular de quem a produz, e está, cada vez mais, tornando-se comum à rotina dos brasileiros. Conforme a Associação Brasileira da Indústria da Cerveja, este tipo de especiaria responde por 5% do mercado, com perspectiva de dobrar o número de vendas em cinco anos. Na região, alguns moradores experimentam a produção caseira não comercial e garantem a satisfação pelo produto com o toque autoral.
Os ingredientes, na maioria das receitas, são os mesmos: lúpulo, malte, levedura e água. A matéria prima faz toda a diferença no sabor da bebida, como conta Gilberto Machado Fontoura Júnior, 47 anos, engenheiro de alimentos e sommelier de cervejas. Morador de Taquara, Fontoura explica que os componentes possuem diversas variedades e podem ser dosados em diferentes quantidades, de acordo com o tipo do produto que se deseja realizar.
O resultado final também depende do tempo e da forma como os ingredientes são trabalhados. O construtor civil Deonisio Machado Moraes, 53 anos, lembra da possibilidade em brincar com os sabores, modificando-os conforme o período em que fermentam ou da quantidade de matéria acrescentada à receita. Também morador de Taquara, ele usa a criatividade para produzir, acrescentando limão siciliano ou laranja ao produto para conseguir um sabor diferenciado.
Assim como Fontoura e Moraes, Alexandre Appelt, 39 anos, concorda que o diferencial da bebida está no modo de preparo. Ele, que mora em Parobé, lembra que as indústrias utilizam cereais não maltados, como açúcares do arroz e do milho. Já na cerveja artesanal, o gosto fica diferente em razão da cevada maltada. Esclarecendo, Appelt conta que o malte dá a cor, o lúpulo o amargor e o aroma, e a levedura faz a fermentação.
Fontoura compra o malte importado da Alemanha ou Bélgica e o lúpulo e a levedura dos Estados Unidos ou da Europa. O engenheiro ressalta que a receita também pode incluir outros materiais, como trigo, aveia ou cereais. O tipo de bebida preparada por ele é mais encorpado e alcoolizado. Após o gole, é possível sentir a persistência do sabor residual na boca, o que, no ramo cervejeiro, é chamado de aftertaste.
O processo de produção exige tempo e dedicação. Moraes diz levar até oito horas nos procedimentos. Assim que passa pela fermentação, a cerveja fica aproximadamente 15 dias engarrafada, para ganhar pressão e maturação, e, então, ser consumida. Quanto mais nova, o sabor da receita estará mais presente. Dentre as vantagens da cerveja caseira, Moraes afirma que a bebida não traz ingredientes químicos fortes que possam causar o vício.
Apreciadores da bebida artesanal
O sabor da cerveja ganhou novo apreço por Fontoura, Moraes e Appelt após começarem a produzir em casa suas próprias bebidas. Os três têm em comum o interesse em degustar um produto diferenciado, autenticamente artesanal e com o toque particular. Todos começaram utilizando panelas de inox, conduzindo os ingredientes durante os processos de forma manual.
Formado em 1998 em Engenharia de Alimentos, Fontoura recorda que, ainda na graduação, descobriu o universo cervejeiro depois de realizar um projeto para uma cadeira. Há quase dez anos, decidiu se aprofundar na produção da bebida, fez cursos em São Paulo, Santa Catarina e Curitiba, comprou livros, leu artigos. Chegou a projetar alguns equipamentos em 2010, comprou alguns maquinários nos últimos anos e, agora, em 2016, tem repensado a ideia de uma nanocervejaria. “A proposta é reunir os amigos”, pontua.
A produção comercial é um sonho de Fontoura a ser construído em longo prazo. O objetivo dele é divulgar a cultura cervejeira, oferecer serviços de harmonização da cerveja com alimentos e ministrar cursos e workshops na área. Ele explica que para registrar uma empresa e comercializar legalmente o produto, há muitas etapas, que devem ser respeitadas quando da abertura de um negócio.
A vontade em criar uma receita própria sempre foi presente em Appelt, que iniciou os primeiros testes assistindo a vídeos na internet. Em 2014, fez um curso em Porto Alegre para aprimorar a técnica. Hoje, costuma trocar experiências com amigos que também produzem a bebida. A geladeira que estava para venda foi adaptada e, agora, serve para armazenar a cerveja durante a fermentação.
O valor da bebida artesanal à venda no comércio era um impeditivo para Appelt. Com a produção própria, pôde baratear os gastos. “O sabor é totalmente diferente da industrial”, ressalta. Hoje, faz cerca de 40 litros a cada 15 dias para aproveitar com os mais próximos.
A produção de Moraes também é totalmente para o consumo próprio, mas, quando começou, pensava em, gradualmente, ampliar para um negócio próprio. Em razão dos altos tributos e da dificuldade em encontrar um público-alvo, decidiu aguardar para realizar os investimentos maiores. O estilo de cerveja que costuma fabricar é a weiss, que é a de trigo. Assim como Appelt, Moraes também participou de uma qualificação em Porto Alegre. A primeira vez que provou a bebida foi durante um jantar em família, há três anos. O sabor agradou ao paladar e não o deixou mais. “É uma cerveja para degustar com amigos”, garante.
Especiaria tem ganho consumidores
Apesar de atrair cada vez mais o gosto de muitas pessoas, o preço da cerveja artesanal ainda tem um sabor desagradável. O valor, muito acima daquelas industrializadas, inibe os consumidores. O acesso a cursos e técnicas de produção tem sido a forma para escapar dos altos custos e garantir a apreciação do líquido.
Fontoura, Moraes e Appelt contam já terem participado de cursos e buscam aprimorar as técnicas das receitas. “Faço a cerveja que gosto de beber”, defende Appelt. A artesanal é mais cara, explicam eles, em razão do processo de produção, já que não é fabricada em grande escala. Para Moraes, “é uma bebida diferente, mais saborosa”. Fontoura comenta que “estamos fazendo um resgate, lembrando a cultura cervejeira trazida pelos imigrantes que colonizaram nossa região”.


