Do meu tuíter @Plinio_Zingano — Na lista de material escolar, há sempre uma ausência: a vontade de estar na escola.
A notícia da moda é o rolezinho. A palavra não estava dicionarizada até o início de dezembro. Pelo menos, não encontrei nos dicionários pesquisados. Está lá a sua matriz, o “rolé”, que recebeu a simpática forma diminutiva, criando-se, assim, algo macio, pelo qual se tem carinho. Partindo do conceito original de “dar uma volta”, “fazer um passeio”, com a ajuda dos meios eletrônicos de comunicação, aconteceu uma mutação semântica. Daí em diante, passou a designar o passeio de multidões. Logo estará nos dicionários.
Mas, gente, “rolezinho” é tão suspeita quanto a poética denominação de “jovem infrator” para bandidos com menos de 18 anos. Na realidade, não é obrigatória essa comparação e eu a fiz só para dar um exemplo de como o uso de palavras pode nos iludir quanto àquilo pretendido. Deixem-me contar uma história acontecida na década de 1960 em Porto Alegre.
Em julho de 1963, a gaúcha Ieda Maria Vargas foi eleita Miss Universo em Miami, Estados Unidos. Hoje, talvez esse tipo de concurso já não tenha tanto apelo popular, mas, naquela época, foi um grande feito, semelhante à conquista da Copa do Mundo de Futebol, vencida um ano antes no Chile pela seleção brasileira.
O retorno à pátria seria, e foi, tão avassalador quanto a volta da seleção, com uma diferença importante: num time de futebol, são muitos os pontos de atração, os jogadores e a comissão técnica. No caso da Miss Universo, havia um objetivo apenas, a misse. E como era bonita! Foi apoteótico!
Acontece que a chegada a Porto Alegre se daria à tarde, em pleno horário escolar. Logo começaram os boatos de que as aulas seriam suspensas para todos poderem assistir ao desfile, feito em carro aberto, entre o aeroporto e, obviamente, o palácio do governo estadual. No Julinho (o Colégio Estadual Júlio de Castilhos), entretanto, era mesmo só um boato. Nada indicava uma possível suspensão dos trabalhos. Então, junto com mais alguns colegas de turma, fiz algo de que, ao longo da minha vida, não tenho sentido orgulho: começamos a gritar, diante da portaria do colégio, “não entra!, não entra!”. Logo estavam todos os alunos gritando. A contragosto da direção, as aulas foram suspensas. Fomos para a Avenida Farrapos receber a bela Ieda.
Vocês entenderam? Eu participei de um rolezinho, embora à moda de cinquenta anos atrás, sem internete. Nós, na realidade, queríamos o que querem os jovens de hoje. Queríamos passear. Porém – e este é o perigo quando se trata dos rolezinhos –, quase aconteceu a passagem da fase “jovens sadios querendo se divertir” para a fase “turba descontrolada”. E é, justamente, essa parte a temida pelos xópins, não importam as admoestações de ministros e as bonachonas análises da turma das borboletas e passarinhos.
Antes que os fofos “rolezinhos” se transformem em ásperos “arrastões”, barba de molho!


