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Esta postagem foi publicada em 15 de dezembro de 2016 e está arquivada em Colunas, Penso, logo insisto.

BAÚ LITERÁRIO

Meu tuíter @Plinio_Zingano – Banho, maquiagem, alfabetização, óculos. Natural, que nada! Somos, praticamente, transgênicos. Só falta a modificação genética. Falta?

Continuando a viagem pelos meus acúmulos, como fiz quando abri o “Baú de rascunhos” na última crônica, encontrei um conto escrito em setembro de 1968. Estava ele, ali, quietinho, datilografado em papel jornal, com todos os erros e percalços cometidos por um mau datilógrafo. Esta característica, aliás, continua, agora, com o computador, mas, felizmente, o crime é cometido com menos testemunhas, pois a correção é feita com mais rapidez e o erro desaparece. Quem, em algum tempo de sua vida, por lazer (eu, neste caso), enfrentou o monstro chamado “máquina de escrever”, se lembra da luta que era trabalhar contra tantas partes mecânicas – na esperança de conseguir um resultado aceitável para suas tentativas literárias – sabe do que estou falando. Quantos pretensos escritores terão sido abatidos no meio do caminho por aquele transformer! E, ainda mais, acima de todo o esforço físico exigido para operar a geringonça, era preciso ter, pelo menos, uma pequena dose de, bem… vocês entendem, qualidade literária. Fui vencido pela falta dos dois, o preparo físico e a qualidade.

Mas, nem tudo se perde, sempre se salva alguma coisa. Uma das características das probabilidades matemáticas é de, após muitas tentativas na execução de algum projeto, uma delas dar um bom resultado. A gente costuma dar um nome a isto: “vencer pelo cansaço”. E esta foi a agradável conclusão a que cheguei ao ler o texto de 1968. Olhei-o como quem analisa o trabalho de outro escritor (não precisa nem ser de um Nobel, apenas uma boa história), como quem lê e vê, na leitura, uma fonte de satisfação e prazer. Tentava adivinhar quais seriam as alternativas imaginadas pelo autor para chegar ao final. Já esquecera qual era o desenlace da história. Por uns momentos, minha lembrança da época fora obliterada. Os quase cinquenta anos passados entre a minha briga com a pequena máquina de escrever e, agora, a redescoberta das quatro folhas de papel dela ejetados, cobertos de erros operacionais, ainda num sistema ortográfico anterior à reforma de 1971 (houve, ainda, a de 1990/2009/2015 – nem sei mais qual o ano certo desta última, tantas, e inúteis, são as alterações) tornaram o reencontro uma aventura de muito valor sentimental para mim.

Meu primeiro pensamento, depois de me elogiar como escritor, foi: vou dividir esta preciosidade com meus leitores de “Penso, logo insisto”; eles merecem! Porém, imediatamente, o demônio do julgamento favorável em causa própria me abandonou. Então, raciocinando com mais serenidade, concluí que não haveria espaço. Desta maneira, encerro a última crônica de 2016, lamentando as circunstâncias espaciais (o tamanho da folha do jornal) terem impedido a divulgação desta minha obra literária. Vamos chamá-la de “o presente de Natal que existe, mas não pôde ser entregue”. É uma pena. O conto é bom!

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