Tudo tem limite nessa vida. Ou deveria ter. E não vou elencar aqui nenhum argumento filosófico, religioso ou moralista. Limite é uma linha tênue entre duas situações, espaços ou atitudes. Limite é isso que está faltando para a maioria das crianças e adolescentes, por exemplo, que abusam de tudo e de todos, empoderados de direitos, com o devido consentimento dos pais, que também não sabem muito bem o que isso significa.
O dito “limite” demarca até onde se pode ir, em qualquer circunstância, em casa, no trabalho, na política, na estrada, na comida, na bebida, na ganância, na competição, na arrogância, naquilo que se torna rotina a cada dia, vício descontrolado do que ultrapassa a linha imaginária, invade o espaço do outro e se transforma em outra coisa, chamada falta de respeito e falta de empatia.
Não seria isso o que está faltando nesse mundo à beira de um ataque de nervos, atolado num colapso social, ético e moral? Não há mais demarcações, sinalizações confiáveis, rastros na trilha que serviriam de alerta, de limite para as nossas transgressões, planejadas ou impulsivas, repentinas ou mentalizadas, boas ou ruíns. Onde está a linha que nos devolve a humanidade? Que nos impede de passarmos para o lado de lá a qualquer custo, num ímpeto irracional, ultrapassando com pressa e anseio ele, novamente ele, o “limite”!
A intolerância, a arrogância e a vaidade talvez sejam derivadas de atitudes limítrofes, em cima da linha, tão tênue que por vezes nem observamos que ela já nem existe mais. Parece tudo uma coisa só. Se o outro faz, eu também posso. Se ele rouba, meus atos se justificam, independentemente dos meios utilizados para conseguir o que se quer. Se todos são modelos e lindos, eu também serei, nem que para isso eu tenha que sacrificar minha personalidade e estourar o cartão de crédito. Se todos posam de atletas hipertrofiados, quem me impedirá de ser o mais “bombado”?
Tudo é possível experimentar, vivenciar, aventurar e questionar em saudável curiosidade, como que a espreitar o cânion à beira do abismo. Dali em diante, mora o desconhecido que nos atrai, nos fascina, encanta e nos faz evoluir, desbravar novos mundos, mas que também pode romper a barreira do limite de cada um.
Certo é que já estamos no limite de tanta violência, tanta corrupção, tanto descaso, tanta roubalheira, tanto desaforo, tanta poluição, tanto desamor e tanto egoísmo. Fica até esquisito lembrar que hoje é dia 2 de dezembro, que 2016 está prestes a romper a linha divisória que nos empurrará para 2017 e que logo faremos uma pausa para descansar e, em seguida, começar tudo de novo, cheios de propósitos altruístas, de votos de boas festas, paz e amor, prosperidade e saúde para dar e vender.
Pena que alguns se perderão na trilha novamente e esquecerão o caminho da volta, apagando a linha que ficou para trás demarcando até onde poderiam ter ido num espaço coletivo, solidário, se não tivessem atropelado todos no meio do percurso para chegar primeiro ao desfiladeiro.


