
Do meu “Livro de citações”: Metade da população mundial odeia seus nomes próprios, julgando-os feios ou ridículos; a outra metade acha que o ódio é completamente justificável.
MEMÓRIA
Sou um sujeito turrão e penso já ter deixado transparecer isso aqui na coluna. Não que eu deseje propalar essa característica, muito pelo contrário, não pega bem para as relações públicas. É sempre bom ser visto e aceito com simpatia. Entretanto, certas coisas transparecem à primeira vista e vocês, obviamente, me sacaram. Mas, calma! Não precisam odiar-me, não sou perigoso. Pelo menos, não no sentido físico. Minha teimosia deletéria restringe-se aos costumes: não gosto de conviver com bobagens. A grande dificuldade é a minha classificação de “bobagem”: ela é bastante abrangente, e isso me torna um sujeito pouco simpático.
O foco de hoje é na memória – “foco” é a palavra da moda; em 2009, todas as nossas ações exigem que estejamos focados em algo; em qualquer situação ela pode ser encaixada, dando um ar mais sofisticado à nossa retórica (olhem só: “foco” é uma bobagem intelectual). Porém, não falarei da memória existente em cada um de nós e que, no seu total, nos define quem e como somos. A essa chamo de “lembrança”. Meu comentário é sobre aquele conjunto de registros mentais feitos pela população como um todo e, sempre, lamentado pela ausência. Manifesta-se na frase autodepreciativa “este país não tem memória”.
Quem nunca ouviu alguém dizendo isso? Aparece quase sempre em entrevistas para a televisão, dando declarações a respeito de alguma personalidade (não importa o tipo – não da declaração, mas da personalidade). São frases em tom de reprimenda, do tipo “olha só como vocês são cruéis, nunca mais mencionaram fulano; depois de tanta dedicação ao país, agora, veja só como ele está; sempre foi tão bonzinho, um verdadeiro herói, não merecia o esquecimento”. Os mais assíduos frequentadores da lista de nossas vítimas são músicos, atores e praticantes de algum esporte e a nossa gritante crueldade vem à tona quando acontece uma dificuldade em suas vidas. Raramente se ouve falar em esquecidos que tenham praticado ações de real importância para a nação.
Na semana passada, mais uma vez os fiscais da memória pátria voltaram a se manifestar. O coitadinho do Romário foi preso por não pagar a pensão alimentícia devida a dois de seus muitos filhos e, horror dos horrores, tratado como um cidadão comum. Sem querer compará-lo a um criminoso, não vejo por que não poderia ter acontecido a prisão. Era uma condição, não era? Se justa ou injusta, é outra conversa. A bobagem insultante foi a acusação de desmemoriados pelo fato de não lembrarmos das alegrias proporcionadas pelo ex-jogador. O que Romário fez para ser considerado melhor que todos nós? Ah!, ganhou polpudos salários e teve nítidas vantagens sobre os outros, por causa da fama. Bem, se devemos estabelecer critérios de diferenciação, então proponho que, em relação a ele, as leis sejam mais duras e não o contrário.
Não! Rechaço com veemência a pecha de não ter memória. Temos, sim. Perguntem à Mônica Santoro e ao Zagalo.


