Paralelas
Esta postagem foi publicada em 24 de fevereiro de 2017 e está arquivada em Paralelas.

QUANTO RISO

Era um autêntico e animado folião. Ansiava o ano todo por aquele momento mágico chamado Carnaval. Blocos de rua, bailes nos clubes, “Grito de Carnaval”, muambas, “Enterro dos Ossos”. Lá estava ele, antes, durante e depois da folia, energia carregada a base de estimulantes, lança perfume e o que fosse possível para aguentar várias noites sem dormir, Pierrô embriagado nos braços de Colombinas e Odaliscas.

Nascera com disposição e ares de festa. Colorido estampado em roupas e fantasias para brincar a vida, esbanjando sorrisos, acumulando paixões e histórias para contar.

Um dia foi para o Rio de Janeiro experimentar a maior emoção da terra e, afirmava enfaticamente, de toda a sua existência. Desfilar numa grande escola de samba fez do sonho realidade, puro êxtase ao som de cuícas e tamborins, sambando junto às mulatas de pele purpurinada.

Anos dedicados à orgia carnavalesca lhe renderam homenagens, reportagens e destaque internacional. O que era divertimento se transformou em profissão e quando se deu conta, já não tinha mais tempo na agenda para simplesmente pular o Carnaval.

Nos camarotes lotados de celebridades, qualquer gesto seu se transformava num espetáculo midiático para ser consumido por um público ávido por fofocas e intrigas. Já nem precisava mais ir atrás do trio elétrico e nem chorar pelo amor da Colombina. A alegria tinha atravessado o mar.

Alimentava secretamente um saudosismo melancólico dos bailes no clube perto da casa onde residia na infância e juventude. Foi ali que tudo começou entre confetes e serpentinas, enamorado da rainha do bloco, a moça mais bonita da cidade. “Vou beijar-te agora”, cantou para ela, antes de sair sassaricando atrás de outro rabo de saia pelo salão.

As noites eram travestidas de ingenuidade e fantasia, amigos e porres, namoros fugazes no banco traseiro do carro roubado do pai. Vez ou outra era acordado pelos guardas na escadaria do clube, mergulhado em poça do próprio vômito, vestígios dos excessos etílicos da madrugada.

Dessa época, restam fotos amareladas e lembranças que emergem da memória, em fragmentos, nem sempre fiéis aos fatos como realmente aconteceram.
Longe dos holofotes, atirado no sofá do apartamento, agora é amparado pelos fantasmas que habitam a sua mente e o fazem companhia neste solitário e último desfile. No rosto, um suave movimento dos lábios ressuscita trechos de velhas marchinhas carnavalescas, sussurradas baixinho para não atrapalhar a transmissão ao vivo da folia pela TV.

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