Paralelas
Esta postagem foi publicada em 10 de março de 2017 e está arquivada em Paralelas.

Silenciosamente

A cidade dormitório, como é chamada já há algum tempo, anda dormindo pouco. O movimento e o barulho, resultantes não só do aumento populacional, mas do número de carros, motos, vans e micro-ônibus circulando e concentrados quase que exclusivamente na rua principal e quadras próximas do centro, revelam a disputa de um espaço que não existe. Aliás, continua o mesmo dos tempos da colônia, quando o principal meio de transporte eram cavalos e carroças, pelas mesmas ruas de hoje, só que sem asfalto (o que, diga-se de passagem, em termos de pavimentação, não mudou muito).

Entre centenas de prédios comerciais, edifícios e os casarões históricos que ainda não “tombaram”, a cidade subsiste, alardeando prosperidade, embora poluição sonora não signifique desenvolvimento, carros nas ruas não espelhem riqueza e placas de aluga-se não atraiam ou mantenham inquilinos.

Muito barulho por nada, até de madrugada. E haja farmácia para apaziguar toda a ansiedade acumulada, cada doença somatizada. E haja restaurante e supermercado para saciar tanta fome. Haja paciência para esperar o silêncio da noite encurtada pelo caminhão que recolhe e tritura o lixo às cinco da manhã.

Talvez a cidade dormitório, por isso mesmo, esteja perdendo o brilho, a leveza, o rumo a identidade, como tudo neste país. Reflexo opaco do que já foi “Um lugar para ficar” e que acabou sendo apenas um lugar para dormir, pousar, repousar (se o vizinho do andar de cima permitir) e ir embora pela manhã, caminhando por calçadas esburacadas em direção a outro lugar.

Talvez sejamos todos culpados, alguns condenados, quem sabe até pouco cobrados por mudanças, renovação, atitudes, revolução. Constatações, divagações e reflexões que brotam da insônia, enquanto o sol já desponta na janela, alguém bate à porta e berra, um táxi estaciona buzinando e a cidade acorda do sono que nem dormiu.

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