Paralelas
Esta postagem foi publicada em 24 de março de 2017 e está arquivada em Paralelas.

Das cavernas

O leite azedou de novo. Soda cáustica já faz parte do café da manhã de todos nós. Tomou? Agora não adianta fazer cara feia porque tem coisa bem pior. Coca-Cola, por exemplo. Você bebeu desde que nasceu e ainda está vivo. Não é um milagre?

Como explicar a resistência física do ser humano diante de tantas situações de risco a que está exposto diariamente, sem sequer imaginar o que se esconde naquele simples molho do cachorro quente mais famoso da cidade vendido ali na esquina. Pelos de rato, talvez, ou uma salsicha deteriorada. Quem se importa?
Houve um tempo em que o pior que poderia acontecer era a criança comer terra ou a asa de algum inseto morto no chão por onde engatinhava. Eu mesma adorava comer pedaços do sabonete durante o banho e erva (de chimarrão). Como podem ver, hábitos saudáveis, quase veganos, diante das opções atuais.
Hoje, sabonete também tem soda cáustica e asa de inseto você encontra em qualquer alimento. Perdeu a graça. É preciso algo mais para nos repugnar. Talvez um churrasquinho de carne podre, um salsichão de papelão ou um frango de plástico. Quem sabe com quantas caixas de sapato se forra um estômago?
A fome da humanidade não tem limite, e a ganância também não. “Comer, comer, comer, comer…é o melhor para poder crescer”. Ou morrer. E “você tem fome de quê? ”

O noticiário denuncia os horrores de uma época sem escrúpulos, sem vergonha, sem moral, sem respeito, sem educação, sem ética. Ninguém hoje fica sem lenço, sem documento, saboreando um sabonetinho ingenuamente. Todo mundo engole sapos indigestos e carne em putrefação e leite adulterado e legumes com agrotóxico. Há quem coma angu e arrote peru, dependendo da propina.

A coisa tá feia! Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Se comer, o bicho morre. Se morrer, o bicho some? O homem cava sua própria sepultura sem se importar com o epitáfio.

Mas a raça é forte. Empesta o ar, envenena a água, exaure os recursos naturais, apodrece os alimentos, mata os animais e, ainda assim, respira sem aparelhos. Sobrevive ereta e arrogante, cuspindo no prato em que come, roubando seus semelhantes e destruindo a única casa que tem para morar.

Saudade do homem das cavernas!

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