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Esta postagem foi publicada em 12 de junho de 2017 e está arquivada em Penso, logo insisto.

CACOETES ORAIS

Do meu tuíter @Plinio_Zingano – Paola Oliveira acrescenta um L ao nome. Dica de um “numerólogo” para aumentar o sucesso. Por que não mais dois Ls? Ou três? ToLLLinha!

 

Eu tenho um primo (ou tinha; pela nossa idade, a mesma, a gente nunca sabe) em segundo grau, morador ao lado de minha casa em Porto Alegre. Seu nome era Dilton – tornou-se médico pediatra. Pois o Dilton tinha um hábito de fala com o qual, mesmo a mim, um piá aí pelos 10, 11 anos, deixava encucado. Nas nossas conversas de crianças, quase pré-adolescentes, quando alguma coisa não o agradava, ele sempre imaginava como a outra pessoa deveria ter agido. E falava o seguinte: “…tade fazer isso”, “…tade fazer aquilo”. Depois de muitos tades, um dia, eu o questionei sobre o significado daquela palavra. Ele ficou me olhando, vazio, espantado com a pergunta. Simplesmente, não sabia do que eu estava falando.
A vida seguiu e, aos 18 anos, entrei no CPORPA, uma escola do Exército para preparar oficiais da reserva. Era o serviço militar obrigatório. Ali, conheci o capitão Almeida, referido, “carinhosamente”, entre os alunos, como reizinho, sabe-se lá por qual razão! Era um sujeito simpático, meio roliço, embora não gordo, completamente diferente do estereótipo veiculado pelo cinema americano do milico durão. Pois o reizinho, quando nos dava instruções, abusava do “quer dizer”. A coisa chegava a tal ponto que era impossível não ficar contando as incidências da expressão. Isso significava perder as instruções propriamente ditas, sobrepujadas pelo afã estatístico de quantos “quer dizer” seriam ditos em aula.
Nessa altura do campeonato, comecei a me ligar numa característica da fala: nem sempre ela é comandada, racionalmente, pelo cérebro. Mesmo dizendo o que nos propomos a dizer, no meio do fluxo verbal, inserimos elementos muito dispensáveis.
Por exemplo, quantos “tipo assim” você já ouviu num bate-papo com seus amigos? Numa conversa pouco mais formal, as chances do aparecimento do “tipo” são bem elevadas. Nas aulas, eu fazia testes com os alunos e notávamos o sofrimento na tentativa de evitar a expressão, como fora combinado entre nós. No meio escolar, talvez pela juventude da clientela, há muitos cacoetes mais. Lembro, ainda, do “que nem”. Teoricamente, sua finalidade era fazer uma comparação entre duas proposições, mas passou a nada significar. Tornou-se, apenas, uma muleta de introdução da fala. Algo semelhante ao “então”, hoje, grandemente empregado para o começo de uma resposta.
Por que falei neste assunto? Não sei. Quem sabe pela insistência dos transeuntes, quando entrevistados pela televisão, em dar respostas positivas terminadas com um interrogativo “né?”. É um cacoete chato, né?

 

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