E então, Sarah, você cruzou o portão e fugiu
sem nos levar?
Para onde foi, sem querer alardear?
E nós aqui, ainda esperando.
Todos, enfileirados.
O ursinho, o hipopótamo de pelúcia, a boneca que ficou no teu lugar, descabelada e com olhos arregalados feitos os nossos, de puro espanto.
Mas agora, você é a boneca, assim, dormindo, como se flutuasse numa piscina de borda infinita, quase a sorrir.
Nós, os teus primos, que somos irmãos mais dos que os próprios, talvez, aqui nos reencontramos em névoa que nos cobre e nos transforma em crianças, como você Sarah, brincando de adultos, agora, porque os pequenos são os outros que precisam de nós.
E você fugiu pela porta que ficou aberta, como a vida é.
Assim mesmo, aberta para o desconhecido, em sua longa ou curtíssima jornada, como a tua, Sarah, neste único aninho que a vida te permitiu viver.
O teu bisavô morreu aos 94 anos e vocês nem se conheceram. Nós vivemos metade disso e também não tivemos tempo suficiente para conviver contigo.
Agora, Sarah, vai brincar em outro jardim, porque aqui faz frio e chove, e isso não é lugar para criança.
Sem saber, abriu uma porta de luz e deve estar sorrindo longe, feito uma estrelinha cintilante a piscar para nós.
Vai em paz, bonequinha, brilhar em um mundo melhor, como só as crianças podem ser.
Nós continuaremos aqui, enfileirados e furiosos, porque você furou a fila e foi antes de nós.
Assim não vale!
*…e para os primos Leandro e Lisi, que enfrentam a pior dor, amparados por nós ou por essas simples palavras, tentando me despedir da pequena priminha Sarah, sem dizer um adeus, mas um até breve.


