Paralelas
Esta postagem foi publicada em 28 de julho de 2017 e está arquivada em Paralelas.

(In) civilidade x gentileza

Em recentes férias, de sangue doce e com tempo de reparar nas coisas, fiquei ainda mais impressionada com as atitudes de uma boa parcela das pessoas. Como viajei em período de férias escolares, quando os ambientes públicos, especialmente as atrações turísticas, ficam lotadas de gente, a falta de senso do coletivo salta aos olhos, chega a ser gritante.

No espaço do café da manhã, no hotel em que estávamos hospedados, no Rio de Janeiro, uma jovem esperava sua torrada ficar no ponto. Detalhe: ela abriu os braços em toda amplitude que podia, e debruçou-se sobre a bancada do bufê, impedindo o acesso dos demais, não só à torradeira, mas a quase metade da mesa. Naquele momento não havia muita gente, parei-me ao lado dela, com o braço da menina me bloqueando, e esperei para ver o que aconteceria. Depois de longos segundos em que ela ignorou minha presença, espichei o pescoço e a encarei bem de perto, por sua lateral e perguntei:
– Moça, a mesa corre risco de cair?
– Não, por que? – respondeu ela.
– Achei que você estava segurando a mesa e que poderia precisar de ajuda – sugeri.
– Não, não! – disse a moça, sem parecer que tenha se dado conta da situação, muito menos esboçando um pedido de desculpas.

Quando visitamos o AquaRio, um aquário inaugurado há não muito tempo dentro do projeto de revitalização da zona portuária, deixou de ser hilário para se tornar ultrajante. Embora tivéssemos agendado o primeiro horário da manhã, já havia muita gente e os funcionários alertavam que a visitação deveria ser em fluxo contínuo. Acho que a grande maioria não sabe o que a expressão significa. Vi adultos plantados por intermináveis minutos diante das disputadas vitrines do aquário para fazer dezenas de fotos de cada de cada peixe e conchinha… E se não bastasse, houve quem colocasse os filhos bem pequenos sentados na mureta de proteção do vidro, para os pais ficarem com as mãos livres e poderem fotografar descansados, enquanto as outras insignificantes criaturas que se danassem, pois não sobrava o que ver.

Aos pés do Cristo Redentor, onde há espaços com colchonetes para as pessoas deitarem a fim de captar ângulos fotográficos privilegiados, o cenário também era de desconsideração total. Havia quem acampasse ali, sem a mínima intenção de ceder lugar na próxima meia hora. Era preciso que a vigilância interferisse para quase guinchar os sem “desconfiômetro”… Aff!!!!

Mas, graças à outra parcela de seres humanos com noção de convivência em sociedade, fomos muito bem recebidos e tratados com encantadora cortesia em vários lugares; no hotel Vermont em que ficamos hospedados no bairro de Ipanema (simples mas muito acolhedor e bem situado), no restaurante Marius, primoroso, no Leme, desde o proprietário, que veio nos saudar, passando por toda a equipe, treinadíssima para encantar o cliente, inclusive as crianças.
Encontramos gentilezas surpreendentes nas equipes do Museu do Amanhã e do trenzinho que leva ao Corcovado, em lojas, com taxistas… Seria sorte? Ou uma reação automática ao por favor, muito obrigado, cada vez menos usado por gente apressada e indiferente ao próximo.

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