
TAQUARA – A Polícia Civil está colhendo depoimentos e aguardando o laudo de perícias na investigação de um suposto racha que causou a morte de duas pessoas na ERS-020. Ainda está em apuração se de fato estava ocorrendo uma corrida na rodovia entre as motos. No acidente, dois motociclistas morreram: William Magalhães Beck, 18 anos, e Jonas Gonçalves Bastos, 21 anos. Também sofreram ferimentos leves outras duas pessoas, atropeladas por um automóvel. O inquérito possui 30 dias para ser concluído. William residia em Taquara e Jonas em Gravataí, mas trabalhava em Taquara.
Depoimentos colhidos nesta semana pelos policiais estão norteando os rumos da investigação, mas diferem da versão inicial contada no registro de ocorrência. O primeiro relato (feito no boletim de ocorrência) dava conta da existência de um racha na rodovia, que estava tendo a participação de William e de outro motociclista até então não identificado. Os dois teriam tentado ultrapassar um automóvel Verona, William pela direita e o outro motociclista pela esquerda. Na manobra, William teria perdido o controle e batido em Jonas. Depois, o Verona teria atropelado os dois motociclistas e fugido do local. Cinco minutos depois, o motorista do Verona, segundo a primeira comunicação à Polícia Civil, feita por testemunhas, teria retornado ao local e atropelado novamente Jonas e outras duas pessoas, fugindo novamente.
A VERSÃO DO MOTOCICLISTA
Nesta semana, os policiais conseguiram identificar este terceiro motociclista que, no dia do fato, não tinha sido reconhecido. Trata-se de um jovem de 20 anos, morador da localidade de Pega Fogo, no interior de Taquara. Ontem pela manhã, o rapaz se apresentou na Delegacia e prestou depoimento acompanhado do seu advogado. Negou que estava participando de um racha na rodovia. Contou que é amigo de William e que, quanto a Jonas, apenas o conhecia. Disse que estava trafegando com William em direção a Porto Alegre e percebeu que Jonas vinha no sentido contrário, em alta velocidade, sem capacete e deitado na moto. O motociclista ultrapassou seu amigo William e contou que um carro, que não seria o Verona, estaria no acostamento, na saída do posto de combustíveis, tentando acessar a rodovia. O piloto não soube dizer se o carro estava em movimento ou parado. Contudo, segundo o depoimento, Jonas se assustou e se desequilibrou, tendo guinado a moto para a esquerda, invadido a pista contrária e batido frontalmente com William. O motociclista disse que o Verona não estava no acidente e a Polícia agora tenta esclarecer a identidade deste carro e do motorista que estaria saindo do posto.
No depoimento que prestou aos policiais, o investigado disse que logo ao ouvir um barulho olhou para trás e percebeu que seu amigo tinha sofrido um acidente. Contou que parou sua moto e foi ajudar no socorro, sendo que pessoas próximas passaram a sinalizar a pista com galhos. Segundo ele, neste momento é que entra a participação do Verona, que estaria vindo no sentido Gravataí-Taquara, com faróis apagados e apenas luzes de alerta ligadas. O motorista do carro teria passado por cima das pernas de Jonas. Segundo a Polícia Civil, o jovem motociclista não possui carteira de habilitação e sua moto estava com licenciamento vencido. O jovem confirmou que, naquele posto, costumam ocorrer reuniões de pessoas em domingos para a realização de racha e para confraternização. Disse que William costumava participar de rachas, mas afirmou que nunca tinha integrado estas disputas.
O QUE DISSE O MOTORISTA DO VERONA
Ainda no começo desta semana, a Polícia Civil também tomou o depoimento do motorista do automóvel Verona que se envolveu no acidente da ERS-020. O homem de 56 anos é morador de Taquara e negou que tenha qualquer tipo de participação na primeira colisão, entre as duas motos, de William e Jonas. Segundo ele, estava retornando em direção a Taquara e acredita que tenha atropelado alguém ou passado por cima das pernas de Jonas. Afirmou que parou seu carro logo adiante ao acidente e retornou a pé para ver o que ocorreu. Neste momento, algumas pessoas teriam partido para cima do motorista, o que assustou o condutor, que voltou para o seu carro e decidiu sair do local, quando, então, acabou atropelando outros dois homens. Estas duas vítimas ficaram feridas e foram encaminhadas a atendimento médico junto ao Hospital Bom Jesus, sendo liberadas no começo da semana.
A INVESTIGAÇÃO
O delegado Ivair Matos Santos está conduzindo o inquérito e tem apreendidos dois veículos: a moto Honda CB e o Verona. Em ambos, foram solicitadas perícias. Além disso, foram requisitados laudos de necropsia nas vítimas fatais. Uma das dificuldades enfrentadas pela Polícia Civil é localizar as motos utilizadas por Jonas e William, que não foram encontradas na noite do acidente. Nenhum circuito de gravação de imagens foi achado pelos policiais nas proximidades e, se aparecer alguma gravação, será de telefone celular, mas, até agora, nada foi entregue à Polícia.
O delegado informou que, neste mês que tem para concluir o inquérito, pretende esclarecer alguns pontos que necessitam melhor elucidação. Um deles é a própria realização ou não de um racha na rodovia, o que pode mudar o enquadramento legal do caso. Se for confirmado um racha, com a participação de alguns dos envolvidos, pode ser configurado o homicídio doloso pelo chamado dolo eventual. Não tendo racha, pode ocorrer indiciamento se for verificada alguma negligência ou imprudência, o que configuraria um homicídio culposo. O delegado prefere não adiantar qualquer conclusão antes de tomar todos os depoimentos e ter acesso aos laudos periciais. “Estamos chamando pessoas imparciais para esclarecimentos que possam nos auxiliar neste trabalho”, explicou o delegado Ivair.


