Paralelas
Esta postagem foi publicada em 25 de agosto de 2017 e está arquivada em Paralelas.

Essa nossa gente colorida

Durante recente estada em Salvador, na Bahia, de um extremo social a outro, ouvi mulheres negras clamando contra a sociedade em que estão inseridas; ou seria sociedade em que estão posicionadas à margem? Quer seja porque não tiveram acesso a uma boa formação, ou porque a boa cultura lhes conferiu senso crítico, mas percebi que a revolta é a mesma, só muda a linguagem e o argumento.

Onde me ocorreu tudo isso? Após duas manhãs à beira mar, escutando o que se passava à minha volta.

No primeiro dia, uma mulher negra pobre, usufruindo do democrático espaço da praia, teve um desentendimento com outra mulher (branca), porque se esbarraram no disputado caminho entre o mar e a pequena faixa de areia compartilhada por exemplares humanos os mais diversos: os locais, de diferentes segmentos sociais, os turistas de outros estados brasileiros, como eu, os estrangeiros em visita à terra de Todos os Santos. Pois bem, eu não vi exatamente o que houve entre as duas, porque minha atenção só se fixou no incidente quando a mulher negra desandou a bradar contra a branca. Deu pra entender que a mulher negra sentiu-se desrespeitada pelo que qualificou, aos quase gritos, de mania de grandeza e superioridade da mulher branca, que, aliás, ficou calada, sem responder às provocações. Para algum desavisado que possa logo me acusar de estar tomando partido da mulher branca, vou alertando que não se precipite. O que me chamou a atenção foi a forma feroz com que a mulher negra reagiu na situação, usando palavrões e tecendo comentários que constrangeram todos em volta, especialmente famílias com crianças. Ficou evidente que na atitude incivilizada e vulgar daquela mulher negra havia muito mais do que a inconformidade com o que quer que tenha havido entre as duas. Suas palavras traduziam a revolta pela discriminação que sofrem os negros; chocaram e se tornaram condenáveis, pelo baixo nível do vocabulário adotado, deixando desconfortáveis até mesmo as pessoas que acompanhavam a mulher, e que logo em seguida decidiram por retirarem-se do local, alvo que foram dos olhares de censura de pessoas brancas, negras e vermelhas (de vergonha).

No dia seguinte, não teve como deixar de ouvir a conversa entre outras três mulheres negras – filha (adulta) e sua mãe (já na terceira idade), acompanhadas de uma amiga. O vocabulário era rico e irretocável, frases construídas com total propriedade pela mais falante delas – a que estava acompanhada da mãe. Aliás, me pus a prestar atenção porque falavam bastante alto, logo atrás de mim, e com aquela elegância linguística que me chama a atenção em qualquer pessoa.

Fiquei curiosa quando uma delas mencionou que havia feito uma abdominoplastia, e que o cirurgião teria literalmente eliminado o seu antigo umbigo, construindo um totalmente novo na barriga esticada, lipada e reconstruída. Sou mulher, né! Não me sofri de, sutilmente, alguns segundos depois, olhar para trás e verificar o resultado da tal cirurgia. Ficou perfeita, bem natural. Foi então que confirmei que as três mulheres eram negras, pois já intuía pelo timbre de voz. Segui ouvindo a conversa, quando o assunto tomou um rumo inesperado. A mulher que fizera a cirurgia plástica comentou que, ao solicitar no local de trabalho um período de férias para realizar o procedimento, teria se deparado com grande surpresa por parte da chefia e colegas: “Tá podendo, hein! Férias pra fazer cirurgia plástica!?” – teriam comentado.

Eu não presenciei a cena e o tom dos colegas, mas ouvi da mulher da praia que aquela surpresa toda continha certa indignação, por ser ela uma mulher negra. Não sei como foi, e a descrição dela não me deu pistas para saber se havia mesmo este sentimento e intenção discriminatória no ambiente de trabalho dela. Mas ela disse claramente que se sentiu discriminada.

Foi então que a outra mulher, que estava acompanhada da mãe, começou a relatar como age na defensiva (ou ofensiva) quando chega na faculdade para lecionar. (Ouvi depois que ela está finalizando um doutorado). Escutei-a dizer: “Chego toda produzida e posuda, olhando de cima mesmo, pra não abrir espaço para que tentem pisar em mim”. E aí desencadeou-se uma longa oratória sobre os negros serem discriminados, por melhor posição econômica e social que detenham, e uma feroz defesa das cotas universitárias.
Lá pelas tantas, eu já estava, timidamente, me atrevendo a pensar que havia um grau de exagero no pensamento defensivo da quase doutora universitária, quando fui surpreendida pelo comentário da mãe desta, que mais escutava do que falava: “Filha, acho que você tem razão de se sentir desconfortável, de reagir contra este preconceito horroroso, mas quando você desafia de propósito e tão claramente as pessoas, está alimentando uma reação ainda mais forte a nós. Acho que a posição que você conquistou, e o preço que isto teve, bastam para falar sobre nós.”

O assunto entre as três não parou por aí. Pelo contrário, inflamou-se após a observação da senhora, mas eu não teria espaço aqui para descrever detalhes. Aliás, as palavras que a senhora adotou para expressar a idéia dela podem não ter sido exatamente as que usei, mas que procurei reproduzir o mais próximo possível (eu estava em férias, não anotei como seria dever de uma boa jornalista). Também ela falava com bom vocabulário, usando um tom ponderado que me exigiu mais atenção para ouvir sua fala.

Não cheguei a uma grande conclusão final para um assunto tão antigo e tão atual, tão amplo e delicado, mas fiquei mexida em ver quão dolorosa é a ferida aberta entre os negros brasileiros de qualquer meio social, e o quanto nos cabe refletir sobre isso.

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