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Esta postagem foi publicada em 15 de setembro de 2017 e está arquivada em Penso, logo insisto.

FAZER SUA PARTE

Do meu tuíter @Plinio_Zingano – Meus tuítes não têm abreviaturas. Eles são histórias com começo, meio e fim. Tudo bem redigido e claro em língua portuguesa.
Pode imitar.

O eslôgã “cada um faça a sua parte” é uma das mais corriqueiras chamadas de propaganda, quando o assunto abordado é alguma promoção social (e em se tratando de propaganda – não confunda com publicidade –, raríssimas vezes não se fala de promoção social). Preste atenção e veja! Sempre somos incentivados a cumprir um compromisso com determinado projeto, mesmo sem nos termos oferecido para participar da execução de tal projeto. A divulgação dessas ações, através da comunicação em jornais, rádios e televisões e, agora, na internete, invariavelmente, nos lembra de uma definitiva expectativa em relação a cada um de nós. “Ei, você aí, não esqueça: cumpra sua parte! Você é muito importante!”.

O interessante, entretanto, é jamais sermos, especificamente, comunicados desse aspecto tão dependente de nossos esperados atos. Pelo menos, eu jamais soube qual seria a minha fundamental participação no desenrolar de qualquer atividade social, exceto aquelas de ordem legal. E, ainda assim, não eram coisas tão evidentes que pudessem ser incluídas no “cuide sua parte”. Neste caso, porém, a lei, simplesmente, determina: não faça isto; faça aquilo. Ela jamais vem com palavras melífluas, alertando-nos sobre as nossas contribuições voluntárias. Entretanto, desconfio, essa nossa participação, no mais das vezes, se reduza a uma escancarada contribuição financeira, para encher bolsos ávidos e espertos. Mas nem sempre. Há ocasiões mais sutis e bem mais impossíveis de serem executadas como, por exemplo, cumprir nossas obrigações com relação ao aquecimento global. Existem campanhas de propaganda – assustadoras, podemos dizer – jogando no nosso colo a responsabilidade de, até, evitar uma hecatombe planetária. Basta fazer nossa parte! O circo armado em torno das atividades propagandeadas é tão intimidador que começamos a nos perguntar: “que gente abjeta somos nós, não fazendo a nossa parte?”.

Antes de parecer um monstro (não sou; pelo menos, não do tipo daquele da serra elétrica), ao conhecer as atividades e os objetivos das atividades propostas, se considerá-los pertinentes, farei, com gosto, a parte a mim destinada. Mas, fique bem claro: devo concordar com ela. Aceitar, passivamente, a decisão de outras pessoas sobre o meu tipo de colaboração, me tornará conivente com decisões cujo resultado, talvez interesse, apenas, ao grupo proponente. Admitamos, é um direito e um dever não querer fazer parte disso! Numa boa, contem-me fora!

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