O andar de cima silenciou. Só quem mora em apartamento sabe o que isso quer dizer. Significa chegar em casa e poder ler, ouvir música, escrever, assistir a um filme ou simplesmente ficar quieto, sem fazer absolutamente nada, sossegando os ruídos da mente neste refúgio chamado lar.
É neste lugar que restauramos nossas energias depois de um dia de trabalho cercado de toneladas de informação, poluição sonora de todos os tipos, reuniões, telefonemas, conversa fiada, gente chata, ar condicionado, trânsito, buzina, bate-boca, exaustão e correria para, finalmente, retornarmos para casa, onde teremos poucas horas de paz e harmonia… ou não.
Isso tudo depende de onde e como você mora, especialmente em apartamentos e condomínios, que potencializam a falta de educação e de respeito, cada vez mais exacerbados, apesar das advertências e das regras que determinam o básico para convivência em “comum” com outros seres humanos.
No lar, cada um dita as suas próprias regras, obviamente, sem interferência de terceiros, ouvindo a música que quiser, reunindo as pessoas que tem afinidades, fazendo o que bem entender, sem dar satisfações a quem quer que seja. Isso é inafiançável.
O que muitos não querem entender, e isso vale para inquilinos ou proprietários, dos 8 aos 80 anos, é que a sua liberdade deveria terminar nessa linha tênue chamada respeito e que tem sido apagada e ultrapassada por qualquer motivo, desde que seja em benefício próprio.
Não se trata de censura ou retaliações, mas de convivência, seja para condomínios, para o trânsito, para o ambiente do trabalho, para tudo na vida. E quando não se fala a “mesma língua”, fica muito complicado viver em sociedade.
Esse negócio de hoje não se poder dizer mais nada, nem em pensamento, porque corre-se o risco de ser filmado e processado, também deveria ter um limite ou apenas o uso inteligente do bom senso. Todos andam “pisando em ovos” em nome do “politicamente correto”, enquanto, paradoxalmente, a falta de educação ganha proporções assustadoras em todos os aspectos.
É muito barulho por nada, enquanto o que deveria silenciar é a consciência de cada um. Ações e atitudes gritam por si só. Escancaram o caráter, a índole e os valores. O resto é purpurina para dar brilho falso àquele opaco cidadão que em nada contribui ou acrescenta à sua comunidade.
Mas o andar de cima silenciou e, só por isso, posso escrever essa crônica e fazer essa reflexão aqui do meu escritório, que estava abandonado por conta dos ruídos que reverberavam há meses sobre a minha cabeça.
De hábitos matutinos, continuo acordando muito cedo, cumprindo rotina de atividades físicas que me dão prazer, quando a maioria dos vizinhos ainda dorme. O silêncio é meu aliado para adormecer, mas principalmente para despertar com a energia necessária para enfrentar o dia barulhento que virá pela frente, a começar pelo caminhão do lixo que chega antes do despertador, sem contar as vozes e os assobios que já abafam o canto do sabiá. Esse coitado, aliás, foi visto nos últimos dias entoando seu majestoso canto em horários malucos, como ao meio-dia ou às duas da tarde, exilado do silêncio do amanhecer que já não existe mais.


