Cultura e Lazer

Declamadora rolantense alcançou pódio no Enart

Clara Lisiane Faccio venceu na categoria feminina o concurso realizado em Santa Cruz do Sul.
Clara com o troféu desejado há anos. Divulgação

ROLANTE – Os versos do poema “O ocaso”, de Carlos Omar Villela Gomes, levaram a arquiteta e urbanista Clara Lisiane Faccio, 30 anos, a um lugar almejado há muitos anos. Orgulhosa com o troféu de primeiro lugar na declamação feminina do Encontro de Artes e Tradição Gaúcha (Enart), no último final de semana, em Santa Cruz do Sul, ela vive o reencontro com o evento após 14 anos da primeira vez como finalista, até o domingo, com o título sonhado.

A 34ª a se apresentar no sábado, de um total de 37 candidatas da final, Clara controlou a ansiedade e conseguiu um bom desempenho declamando a poesia “Despedida numa noite de agosto”, de Vaine Darde, verso que também lhe deu o título de campeã na edição de ouro no Festival Gaúcho e Gastronômico de Arte e Tradição (Feggart), em 2015. Ficou em segundo lugar, seguindo para a finalíssima dentre as 12 selecionadas. No domingo, a surpresa foi grande com o resultado de grande campeã. Mas, até o dia de uma das maiores conquistas dela, muitas etapas foram superadas.

A inter-regional em que ela concorreu foi em Santo Ângelo, de 26 a 27 de agosto, uma das mais competitivas do Enart. No páreo, 49 declamadoras disputavam dez vagas. Clara ficou em 6º lugar. Somando às outras seletivas, foram 154 candidatas em todo o estado, sendo 30 selecionadas para o evento, cinco de repescagem e outras duas que tinham acesso em razão da vitória em 2016. No ano passado, Clara também chegou à final, mas esqueceu parte do poema e acabou não avançando para a finalíssima. “Saí do palco desesperada, com raiva de mim. Era um verso antigo, que eu nunca tinha esquecido”.

Para seguir adiante, sabia que precisava se aperfeiçoar. Recorreu a Wilson Araújo, com quem ensaia desde os dez anos de idade e admira muito. Ele esteve no Rolantchê, e os dois aproveitaram para conversar. Na quarta-feira do feriado de Proclamação da República, Clara foi a Terra de Areia, onde mora Araújo, e ensaiaram cinco horas diretas. “Eu digo que é meu mestre, uma pessoa em quem me espelho bastante. Saí de lá bem tranquila e segura sobre o que eu iria fazer”, recorda, atribuindo a Araújo parte da vitória.

A declamação é questão de sentimento interior, elucida Clara. “Tu tens que externar o que o poeta escreve no papel, de forma natural”, explica. Em relação ao Enart, conta que sentiu que algo poderia acontecer. “Eu sabia que tinha feito um bom trabalho em palco, vi os jurados conversando e vi que tinha chances de ganhar”, relembra. Mas, apesar da confiança, diz ter ficado surpresa com o resultado. “Na hora, fiquei estática, sem saber o que fazer. Depois, eu olhava para o troféu, e demorou a ficha cair”.

Paixão pelo tradicionalismo desde criança

Clara tinha quatro anos quando foi arrebatada pela primeira vez às danças tradicionais gaúchas. Na época, uma amiga, que fazia parte de um CTG, lhe ensinava passos, coreografados no meio da rua, dentre as brincadeiras das crianças. O pai percebeu o interesse da filha e a colocou no Passo dos Tropeiros, onde foi a primeira prenda caçula da entidade e da 22ª Região Tradicionalista, em 1994.

No ano seguinte, concorreu como prenda mirim, ficou em terceiro lugar, em 1996 em segundo, até que em 1997 conquistou o título do CTG Passo dos Tropeiros. Em 1998, foi a primeira prenda mirim da 22ª RT. Em 1999, participou do concurso estadual de prendas, mas não ganhou. Começou a declamar nos rodeios ainda como prenda mirim pelo Passo, conquistando diversos rodeios na época.

Quando fez 15 anos, já estava participando da invernada artística do CTG O Fogão Gaúcho, de Taquara, onde ficou por quatro anos. Começou a participar dos rodeios também como declamadora, sendo campeã em Osório, Rolantchê, Canela e Capão da Canoa, dentre outros. A primeira vez no Enart foi em 2003, mas não conseguiu vaga para a finalíssima. No ano seguinte, o feito se realizou, mas ficou em nona colocada do domingo.
Na época, já tinha 18 anos. Engravidou com 19, casou e se afastou da declamação. Há dois anos, após a separação, decidiu resgatar a relação de proximidade com o tradicionalismo. No dia 24 de julho de 2015, voltou aos palcos na edição de ouro do Feggart, realizado em Farroupilha. Ficou em primeiro lugar como declamadora. Depois, em Passo Fundo, ficou em quarto. Foi a Osório, mas também não premiou. Participou de poucos, mas dos mais difíceis rodeios, sempre na companhia do filho Gabriel Faccio Scheffer, hoje com 10 anos.

A conquista no Enart foi um sonho que se tornou realidade. Porém, Clara não quer parar. Ganhar no Rodeio Internacional de Vacaria é outro desejo, bem como no de Passo Fundo. “A poesia é questão de momento, tem que estar na concentração. Cada um tem o seu especial”, garante.