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1º Passeio Ciclístico Sem Limites: como três-coroenses estão transformando o turismo gaúcho para pessoas com deficiência

Evento pioneiro da APDAF reuniu PCDs do Paranhana e outras regiões do RS para pedalar no Parque Nacional de Aparados da Serra, em Cambará do Sul
(Fotos: André Amaral/Rádio Taquara)

O Parque Nacional de Aparados da Serra, em Cambará do Sul, foi cenário no sábado (1º) do 1º Passeio Ciclístico Sem Limites, evento pioneiro que reuniu nove pessoas com deficiência (PCDs) para pedalar até a beira do cânion Itaimbezinho. A iniciativa, promovida pela Associação das Pessoas com Deficiência, Amigos e Familiares (APDAF), sediada em Três Coroas, envolveu participantes do Vale do Paranhana, Região das Hortênsias, Vale do Sinos e outras partes do Rio Grande do Sul.

Por entre pedras, poças d’água e pontes, numa quase metáfora à arquitetura hostil das cidades, os participantes mostraram que têm espaço em qualquer lugar. E pavimentaram o caminho para tantas outras pessoas que buscam uma sociedade mais inclusiva. Um direito que, para muitos, parece simples, mas que nem sempre se concretiza para quem tem deficiência: o pertencimento.

Os desafios da trilha

O meio de transporte usado no evento-teste foram as handbikes, bicicletas adaptadas que são pedaladas com os braços. Elas permitem que pessoas com mobilidade reduzida ou deficiência nas pernas se movimentem com total independência. O ciclista pode ficar em posição reclinada ou ereta e usa manivelas para girar as rodas e controlar a velocidade e a direção. Por oferecer essa autonomia, as handbikes são perfeitas para trilhas como a de três quilômetros do parque em Cambará do Sul.

A caminho do cânion
Todos podem

Segundo Gabriel Feiten, vice-presidente da APDAF, a ação surgiu a partir do evento inclusivo Camping Acessível, realizado anualmente em Três Coroas e que teve sua edição mais recente em março, no Parque das Laranjeiras, reunindo mais de mil pessoas.

“Tivemos a oportunidade de ver o quanto é importante levar pessoas com deficiência para o esporte de aventura e o turismo acessível. Após a sexta edição, entrei em contato com a Secretaria de Turismo de Cambará do Sul, e eles aceitaram prontamente a ideia de fazermos uma pedalada inclusiva”, explicou.

Para muitos participantes, foi a primeira chance de pedalar em cenários como os da Serra Geral, com seus impressionantes desfiladeiros que marcam a divisa natural entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Ajustes das handbikes

Feiten detalhou: “Nunca tínhamos conseguido trazer pessoas com deficiência para pedalar nos cânions. Trouxemos as handbikes, que fazem parte do patrimônio da associação, e emprestamos para nossos amigos e parceiros. Contamos com todo o apoio da administração do parque e da Secretaria de Turismo de Cambará, o que tornou possível essa aventura no Parque Nacional dos Aparados da Serra”.

Segundo ele, a experiência, descrita como “fantástica”, deixará um legado. “Cambará e a administração do parque decidiram transformar essa ação em um evento anual. Assim, todos os anos teremos a oportunidade de voltar aqui e permitir que mais pessoas vivenciem essa paisagem maravilhosa, em contato direto com a natureza”.

Luís Tizian, presidente da APDAF, destacou como cada pedalada trouxe emoção e significado ao encontro.

“Foi um momento especial e único. Seis quilômetros de handbike, no meio da mata, e chegar no final, vendo os cânions, é indescritível. Isso prova que qualquer pessoa com deficiência pode participar dessas atividades. Nosso papel é provocar, incentivar o poder público para que eventos como este aconteçam também em outros municípios. A associação está à disposição para ajudar nessa expansão do turismo inclusivo”.

Momento do briefing

Durante briefing com os participantes antes do início da pedalada, o secretário de Turismo de Cambará do Sul, Andrews Mohr, enfatizou o compromisso do evento-teste com a acessibilidade:

“Queremos transformar Cambará em um destino internacional de natureza. Mas ele só será completo se for acessível. Não é uma questão de legislação, mas de oportunizar essa experiência. A ideia da trilha é que vocês, PCDs, sintam e nos digam o que podemos melhorar. Precisamos entender se a atividade é realmente prazerosa, se vocês curtiram, e, então, identificar as dificuldades encontradas para que possamos evoluir. Há quatro anos, não seria possível realizar algo assim, porque não tínhamos os equipamentos necessários. Ver isso acontecendo hoje é um avanço enorme”, disse Mohr.

Para garantir segurança, o passeio contou com o acompanhamento de um veículo e de um quadriciclo.

Mohr recepcionou os participantes
Sempre em movimento

Participantes do evento também compartilharam suas experiências. Carlos Guilherme Rocha, de Gramado, relembrou sua jornada pessoal até chegar ao 1º Passeio Ciclístico Sem Limites.

“Sofri um acidente mergulhando, há mais de vinte anos. Mas a vida segue, e encontrei no esporte motivação, saúde e bem-estar. Participar desse passeio é uma alegria. Estar na mata e apreciar as lindas paisagens da serra é revigorante. Para mim, a verdadeira vida é buscar felicidade, estar entre amigos e se divertir. Sempre gostei de esportes: depois do acidente, pratiquei natação, caiaque, vela e musculação, e a handbike chegou para ficar. O essencial é não deixar o corpo parar”.

Rocha: diversão e movimento