E lá se foi o ano. A história ganha mais um centímetro na sua linha do tempo, ensinada há muito pelos mestres aos seus pupilos em sala de aula.
E, como num ritual sem paternidade reconhecida, havido desde sempre e legitimado pelo costume intercontinental, na virada do ano, “aos quarenta e cinco do segundo tempo”, as pessoas, afetuosa e fraternalmente, entrelaçam-se os seus corpos, abraçando-se fervorosamente, ávidos a ditar ao próximo (geralmente um parente, um vizinho, um amor), toda a sorte de desejos. Afinal, é ano-novo!
Desejo de dinheiro, amor, vida nova. Desejo de sucesso, trabalho, carinho, satisfação. Desejo de aprender, de conseguir passar na maldita prova, de alcançar um emprego de envergadura, moldado na exata medida dos seus esforços curriculares. Desejo de que a pessoa amada volte a ter aquele olhar de início de romance, como no primeiro réveillon em que passaram juntos. Desejo de paz. Todo o mundo deseja paz, tão necessária e vital nas relações humanas.
Pois este ano, antevendo que especificar demais pode emaranhar as transmissões das ondas energéticas que captam as nossas pretensões (leia-se: alguém ou aquilo que você acredita ser o receptor dos seus desejos), pretendo inovar em meus pedidos: nesta virada, decididamente, vou fazer pedidos mais genéricos. Algumas vezes, especificar demais atrapalha. O grande lance está, penso, em ser abstrato mesmo, ser mais poético do que pragmático. Por isso, neste ano-novo, vou esquecer os pedidos velhos.
Vou desejar, portanto, que a esperança não desfaleça frente aos murmúrios, que a força prevaleça à preguiça e ao desânimo; que a retidão de caráter não se subverta aos obstáculos, por mais espinhosos que se apresentem, e que, enfim, seja um novo ano mais propício a descobrir respostas do que a cultivar dúvidas. Melhor aspirar, também, a um maior equilíbrio racional, sopesado ao necessário cotejamento de paixão e constante lapidação das virtudes.
Talvez assim, dessa forma mais prolixa e demasiada, o Universo ouça melhor. Talvez assim ouçamos, de fato, a nós mesmos, que costumamos ter potência vocal para reivindicar, mas não deixamos de ser, quando convém, surdos morais por excelência, do mais nobre ao menos abastado.
O certo é que, no final das contas, até mesmo o mais incrédulo dos seres vai desejar que o próximo ano seja um período melhor, com pessoas melhores. Sim, o descrente também vai ambicionar a tudo isso, mesmo que singularmente nos seus pensamentos mais íntimos, pulando as sete ondinhas e adotando as cautelas possíveis – ao custo de algumas espumantes a mais – para não molhar a célebre peça íntima, guardada especialmente para a ocasião. Amarela para a maioria. Vermelha para os enamorados. Branca para todos.
Cassiano Vladimir Ebert
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