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Esta postagem foi publicada em 16 de novembro de 2017 e está arquivada em Penso, logo insisto.

A FABULOSA VIDA DOS OUTROS

Do Meu Cinicário – É na feitura do calendário de recuperação dos dias parados numa greve de professores que se vê o exagero do tempo de aulas obrigatórias.

Assim, de relance, talvez este seja o título mais longo alguma vez usado em qualquer das minhas 321 crônicas anteriores aqui no jornal. Inicialmente, apesar de ainda grande, teria uma palavra a menos: era “A fabulosa vida alheia”. Não encurtaria muito, mas, igualmente, trataria do mesmo assunto. Optei por trocar. Explico! Cada vez mais, sedimentou-se a ideia de coisa pouco recomendável usarmos a palavra “alheia”. Nas redes sociais – e poucos não estão lá – nos acostumamos àqueles posts, em que prováveis desafetos do remetente são, delicadamente, estimulados a deixar de cuidar da vida alheia (no caso, a de quem se sente bisbilhotado). Com isso, “vida alheia” se tornou palavrão, assim como “amigo do alheio”, já sacramentado como sinônimo de “ladrão” (vejam vocês, um sentimento tão lindo, a amizade). Neste comentário, porém, a conotação se mantém longe de tais picuinhas. O tema é a vida daquelas pessoas abençoadas, livres dos problemas e dificuldades tão presentes na nossa própria vidinha.

Toda a indústria do entretenimento, aí incluídos o esporte, os xous de cantores, chatos ou não (oh!, sim, a Ivete Sangalo também), as telenovelas e a moda em geral, serve apenas para mostrar como existem pessoas vivendo acima dessas preocupações torturantes para nós, mortais comuns, desde doenças até a falta de dinheiro para pagar uma simples viagem à Disneylândia. Temos certeza, algumas pessoas foram selecionadas e nasceram com aquilo – cujo nome não ouso escrever – virado para o satélite natural da Terra. Tudo lhes vai bem, tudo lhes dá certo!

Mas…, parem um pouco! Alguém aí já viu, em alguma entrevista, um rico e invejado produtor rural, agradecendo o ótimo clima e dizendo que a safra atual vai ser a melhor dos últimos anos? Eu, jamais! Ou, como dizia meu velho professor de Matemática, Luiz Finn, lá no antigo Ginásio da Paz, de Porto Alegre, parafraseando um francês: “jamé”! Alguém terá visto o Jorge Gerdau reclamando da difícil situação econômica do país? Pois, eu vi. Caras, o Gerdau! Todo mundo reclama, droga!

A conclusão é que nós somos injustiçados, enquanto os demais têm uma vida fabulosa! A vida alheia é sempre um mar de rosas! Já a nossa… Porém, por uma questão de consciência, deveríamos lembrar que, na perspectiva de cada um desses outros, nós também fazemos parte daquele grupo seleto e invejável: também somos “os outros”.

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