Caixa Postal 59
Esta postagem foi publicada em 16 de julho de 2010 e está arquivada em Caixa Postal 59.

A ilusão do novo acordo ortográfico

Resta um ano e meio para que entre em vigor completamente o acordo ortográfico da Língua Portuguesa (LP), cuja finalidade é unificar a grafia dos países que utilizam o nosso idioma. Este e o próximo ano, 2011, são anos de adaptação, sendo aceitas as duas ortografias. Em 2012, teremos que adotar  completamente a nova ortografia.
Sempre fiquei com um pé atrás diante de tal unificação gráfica nos países lusófonos (que usam a LP). Duas razões, além da aversão ao novo, o que sempre nos atinge, mesmo que inconscientemente, me fizeram (e fazem) rejeitar tal acordo. Uma delas é de ordem lingüística e outra de ordem político-cultural.
O argumento lingüístico é científico e, portanto, é inquestionável, a não ser pela própria ciência. Os lingüistas afirmam que leva cerca de 50 anos para que seja assimilada completamente uma reforma ortográfica de um idioma. É, nesse sentido, o equívoco do novo acordo. Os dados são esclarecedores: tivemos reformas na LP do Brasil em 1931, 1945, 1971 e 2009. Isso mostra que nenhuma das três reformas anteriores a do ano passado teve tempo de ser completamente assimilada. O que justifica, por exemplo, o fato de um pai de um amigo pessoal do autor ainda escrever a palavra ele com acento (êle), modificação que data de 1971.
Os argumentos político-culturais só os fatos podem justificá-los ou refutá-los. Tive desconfiança da real adesão de Portugal à nova ortografia desde o início, uma vez que ela mexe mais com a LP lusitana do que com a brasileira e, além disso, há um histórico de manutenção da ortografia vigente dos portugueses. Faltavam-me dados. A tempos vinha conversando, via MSN, com uma acadêmica de Artes da Universidade de Coimbra que me relatou que não existia quase nenhum movimento para a implementação da nova ortografia em Portugal e, no último dia 6, presenciei algo que pode ser esclarecedor. Naquela tarde de domingo, realizou-se o encontro do ISD (Interacionismo Sócio-Discursivo) na Unisinos. Entre as várias presenças importantes, entre elas a de Jean-Paul Bronckat (que ocupa a cadeira de Piaget na Universidade de Genebra), estavam três pesquisadoras da Universidade de Lisboa, que fizeram uma importante apresentação. Os slides do Power Point apresentado por elas estavam, no entanto, grafados na ortografia da LP portuguesa anterior ao acordo.
Penso que já deixei a entender qual é o equívoco do novo acordo ortográfico, mas, mesmo assim, vou afirmá-lo. A ilusão está em acreditar que o acordo unificará a ortografia de todos os países lusófonos. Posso até estar enganado, porém tenho motivos para alimentar a desconfiança.
Rafael Hofmeister de Aguiar
Membro do grupo de pesquisa em Linguagem e Tecnologia para a Aprendizagem de Línguas do PPG em Lingüística Aplicada da Unisinos

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