Em meio aos recentes relatos assombrosos de casos de suicídio entre adolescentes, seduzidos pelo jogo da “Baleia Azul”, surgiram, automaticamente, inúmeras teorias, debates, teses, argumentos e opiniões de todos os lados tentando compreender o incompreensível. Ainda que o assunto tenha ganhado espaço e ampla divulgação em toda a imprensa mundial, é sabido que casos de suicídio não podem ser noticiados, com raríssimas exceções.
O que chama a atenção, porém, é a facilidade com que as pessoas “se jogam”, acreditando em qualquer coisa que veem/leem nas redes sociais, principalmente. Nada é questionado, tudo é imediatamente consumido/engolido/digerido sem qualquer reflexão mais aprofundada, com raras exceções, é bom que se diga, também.
O filósofo francês Gilles Lipovetsky, que estará em Porto Alegre no mês de junho, resgata algo dessa pressa no seu mais recente livro, “Da Leveza – Para uma Civilização do Ligeiro”. Em recente entrevista, ele lembra que estamos em uma sociedade que valoriza o culto contemporâneo à felicidade, em contraste dramático com a rotina cada vez mais competitiva, individualista e veloz neste mundo globalizado.
É sobre este paradoxo que me debruço quando vejo adolescentes desesperançados numa idade em que deveriam estar, isso sim, mais vivos do que nunca espalhando energia e compartilhando sorrisos. Não é o que ocorre diante de “tantas” frustrações que os muito jovens (e alguns nem tanto) parecem não estar conseguindo mais tolerar. Coisas simples, talvez, como não conseguir comprar um novo smarthphone, ou tão complexas que até os psicanalistas vacilam em decifrar.
Fato concreto este vazio contemporâneo que se instala tão rapidamente quanto os compromissos a que somos “obrigados” a cumprir, diariamente, alucinadamente, na velocidade de um piscar de olhos, entre as centenas de mensagens “urgentes” do WhatsApp ou as milhares de postagens “imperdíveis” mais recentes do Facebook.
Se são dias difíceis para quem sabe lidar com tudo isso, imaginem para quem “navega” por mares totalmente desconhecidos, nunca antes explorados.
Amadurecimento e conhecimento exigem tempo, paciência e, acima de tudo, educação. Não se trata de simplesmente ir à escola, mas de ter formação sólida, base que vem de casa, para ser complementada com a reflexão e o pensamento crítico desenvolvido em ambientes mediados por profissionais qualificados, livros, debates, discussões e, obviamente, pela internet, que tem muita coisa que presta, sim, mas que não está sendo usada no seu melhor potencial por quem apenas “se atira”, sem questionar, sem ver, engolindo rapidamente o que se apresenta, na pressa de chegar sem nunca ter partido.
Difícil ser leve com tanto peso, embora viver ainda seja a única maneira de seguirmos “sendo”, até conseguirmos deixar o fardo à beira do caminho ou conseguirmos carregá-lo sem medo, para só então perceber que nem era tão pesado assim diante do sofrimento alheio. Basta olhar para o lado e, quem sabe, solidariamente ajudar a carregar o fardo do outro, que pode ser bem pior que o nosso.
Esta postagem foi publicada em 2 de maio de 2017 e está arquivada em Paralelas.


