Do meu tuíter @Plinio_Zingano – (…) nem que, para tudo isso entrar nos eixos, tenhamos que organizar uma verdadeira anarquia. (Uma aluna minha do Ensino Médio)
A LEGALIDADE
E já lá vão 50 anos! Em agosto de 1961 eu tinha 16. Por que esta preocupação de definição da idade? Simples. É fácil justificar sob as luzes dos conhecimentos legais dos dias correntes. Na época, eu era um adolescente. No fato narrado a seguir, se fosse hoje, haveria a intervenção do ECA, e eu estaria protegido.
Naquele ano, como todos viram em reportagens, o maluquete do presidente Jânio Quadros, eleito em 1960, resolveu ser açoitado pelas famosas “forças ocultas”. A respeito dessas tais forças, tudo o que se falar será apenas presunção. Ninguém, realmente, sabe o que aconteceu. Mas, por causa delas, o homem abdicou do seu mandato de chefe da nação. Chamei-o de maluquete, porém deixou-me boa impressão. Talvez por espírito de corpo. Ele foi, antes de político, professor de português e, na minha pequena biblioteca – duas prateleirinhas, se tanto – conservo uma obra dele em cinco volumes, o “Curso Prático de Língua Portuguêsa”, assim com o circunflexo, pois é anterior à reforma ortográfica de 1971.
Os atos de Jânio sempre vinham acompanhados, na imprensa, de algum comentário sarcástico. Ele, como outra figura presidencial mais recente, era tido como chegado a uma 51. O vice, João Goulart, na ocasião, estava em missão diplomática na China. Pela Constituição, deveria assumir o cargo. Mas – e nós sabemos a importância dos “mas” na política – houve uma turma contra a posse do vice. Formou-se o imbróglio.
Leonel Brizola, governador gaúcho, incidentalmente cunhado de Goulart, tomou as dores do irmão de dona Neuza, sua esposa, armando o maior forrobodó. Ao contrário do vice-presidente, o governador sempre foi muito ladino. Amparado pela constituição, resolveu entesar e exigir o cumprimento da lei. Conseguiu. Sem saber, o governador, com seus “rotundos nãos” (a palavra “rotundo” é a minha melhor lembrança dele) criou uma pequena indústria cultural futura. Os cinquenta anos do episódio estão rendendo bastante em termos de escritura de livros e palestras.
Eu não fui entrevistado, ninguém se lembrou de mim, mas, nos meus 16 anos, tive uma participação fundamental naquele episódio. Fui um dos corajosos gaúchos prontos para manter a legalidade da assunção do vice-presidente. Pertenci à galera, sem a qual, nenhum artista tem sucesso. Inscrevi-me como voluntário para defender a Constituição, inclusive com o sacrifício da própria vida. Claro, houve gente muito importante (também não entrevistada) que contribuiu para o sucesso da empreitada. Entretanto, eu quero dar o meu depoimento sobre o assunto.
Em todas as recordações, os destaques foram a coragem e bravura. Minha realidade, porém, foi diferente. Nunca senti tanto medo! Depois da inscrição e do aviso “qualquer coisa a gente chama”, passei a tremer. E se a discussão realmente passasse para a ignorância, como quase aconteceu?
Hoje, vendo a confusão na Líbia, onde o Kadafi promete a defesa da pátria até a morte, lembro: alguém já falou isto, contando comigo. É barbada apostar a vida dos outros. Se der certo, o prêmio é de quem aposta. Se der errado, quem morre são as fichas.
Por via das dúvidas, o Kadafi desapareceu.


