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Publicado em 09/08/2021 20:04 Off

A língua portuguesa, como a sociedade, evolui

Existe um passatempo on-line que nos desafia a descobrir os 100 verbos mais usados da língua portuguesa. Não sei se alguma pesquisa acadêmica embasou esse conteúdo, muito menos quaissão ascredenciais de quem elaborou o joguinho. De todo modo, trata-se de uma brincadeira interessante, nem que seja para testar o vocabulário.

Eu, que adoro cruzadinhas e congêneres, já passei um bom tempo tentando preencher aquela centena de lacunas. E fui notando algumas curiosidades nesse processo.

Se a lista estiver correta, os falantes do português pagam mais que recebem e perdem mais que ganham. Talvez isso explique por que boa parte da população brasileira vive na penúria. Nós também falamos mais que ouvimos, o que provavelmente demonstra nossa imensa dificuldade de comunicação. Por outro lado, o verbo “ser” é mais frequente que “ter”, um bom indicativo de como a qualidade do caráter supera quaisquer bens materiais do indivíduo.

Claro que essas reflexões são uma grande licença poética. Ainda assim, um idioma tem o poder de traduzir o que um povo sente, pensa ou faz. Por isso algumas expressões se tornam mais necessárias ao longo dos anos.

Vale destacar que as necessidades mudam conforme as circunstâncias. Na falta de um termo específico para nomear certos fenômenos ou objetos, às vezes temos até que adaptar dos estrangeiros. Foi assim que incorporamos à nossa fala cotidiana o biombo (palavra de origem japonesa), o azulejo (origem árabe) e o canapé (origem francesa), entre tantos outros. Inclusive, a edição mais recente do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) recebeu adições como telemedicina, criptomoeda, feminicídio e home office, em consonância com os rumos atuais da sociedade. Agora esses verbetes, consolidados pelo uso popular, constam oficialmente no rol da Academia Brasileira de Letras.

Enquanto isso, outros caem em desuso ou ganham novas acepções. Alguém aí ainda fala “supimpa”, “basbaque” ou “janota”? Pois é. Houve um período da história recente em que homem bonito era um pão, depois um filé. Hoje ambos os vocábulos estão restritos à gastronomia. Já um sinistro, quando não se tratasse de acidente previsto na apólice do seguro, era originalmente algo macabro e assustador. Porém, há uns 20 anos, virou exclamação para coisas excitantes e surpreendentes. Se bem que essa gíria não me parece mais tão forte entre os jovens…

Enfim, todo idioma é como um organismo vivo que sofre mutações para sobreviver ao ambiente em que está. Ao mesmo tempo, serve de registro dos valores e dos comportamentos vigentes nas épocas anteriores. Precisamos respeitar o passado, mas entender que o vernáculo, como a vida, evolui.

No fim de julho foi reaberto, em São Paulo, o Museu da Língua Portuguesa. Esse é um espaço que registrao conhecimento acumulado, ensina a origem das palavras e enaltece a pluralidade de sotaques, regionalismos e possibilidades comunicativas de nossa língua-mãe. Autoridades de diversos países lusofalantes estiveram na cerimônia de reinauguração, dada a relevância do momento. Compareceram ao ato o ministro da Cultura de Angola, o presidente de Cabo Verde, o presidente de Portugal e dois ex-presidentes brasileiros. O atual governo federal do Brasil não enviou nenhum representante, confirmando o quanto valoriza a cultura, a educação e a diplomacia.

Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista, de Taquara
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