Caixa Postal 59

A mais legítima Amélia, aquela que era mulher de verdade

Em janeiro de 1957, viemos de muda da Colônia (Distrito de Padilha) para Taquara, onde nos instalamos em uma pensão que meu pai arrendou. A Pensão Familiar, que ficava (ainda fica) na Rua Emílio Lúcio Esteves, um pouco abaixo do hospital Bom Jesus (prédio verde antigo). Nosso pai trabalhava com venda de embutidos de um matadouro de Padilha (Irmãos Muller) e, também, era músico – tocava saxofone na Bandinha Continental (em bailes aos sábados, era difícil passar uma semana sem!). Por esse motivo, ficava pouco em casa.

A nossa mãe, Amélia Guilhermina, que, como diz a letra da famosa música, provou, sim que Amélia era Mulher de Verdade. Como nosso pai, quase sempre estava ausente, “a bomba” caiu, literalmente “no colo da nossa mãe”, que sem a devida experiência, tinha que “pilotar a cozinha” para servir o café da manhã para os pensionistas que, por sorte, eram só dois ou três. Um que não esqueço, foi o saudoso amigo, Jacó Coronetti (estofador), Que devido à amizade, convidou nossos pais para serem padrinhos da primogênita, Eliane. Como “colona”, que era, nossa saudosa mãe, tinha que administrar a pensão, e cuidar dos seis filhos (três mulheres e três homens, sou o mais novo, com 70 – em vias de 71 em novembro), todos eles em idade de serem cuidados pela mãe, principalmente a mais velha, Ercy (que acabou  de fazer 80 anos dia 11/04), que além de tudo, sofria de epilepsia e merecia cuidados especiais.

Até hoje, não sei como a nossa mãe, conseguiu se virar, com a ajuda minguada dos filhos, a cuidar disso tudo, daí a afirmar que ela era” uma mulher de verdade”! Aliás, a bem da verdade, nossa mãe. virou uma baita cozinheira  – só fazia rango bom! Suas comidas, ó, eram supimpa! Além de ser ótima na pilotagem de forno, como cucas, bolachas de Natal, roscas de polvilho e pães de milho caseiros, além de assados de carne de porco ou de gado. Foi naquela época, que fiz amizades, como vizinho, até hoje, indestrutíveis, tais como, o saudoso casal Nilo e Jurema Frohlich e os filhos, Madalena (Lena), o saudoso Aloísio (Iso), Aléxio (o Leko da Tio Patinhas) e a saudosa Verônica (Rogue) o Atanásio (Ata), não era nascido ainda, seus primos Júlio Schmidt, o saudoso, João Pedro da Silva (Pedrão) e Clóvis José da Silva (Zé Fiúsa) Lenita e Lisete, o Nando, veio depois (seus pais, Astrogildo e Melita (me lembro do caminhão Fenemê (FNM), que os filhos homens, mais velhos, Fiúsa e Pedrão,  insistiam em dirigir sem habilitação para tal), o Raul Júlio Kohlrausch ( o Buião) e Renato Leonardo Schawrz (anos depois, meu colega na polícia), também, daquela época, os irmãos Elio e Delmar (Índio, também, meu colega, anos depois)  dos Santos (vizinhos, estes, dos fundos).

Cerca de dois anos depois, já pelo fim da década de 50, nova mudança, dessa vez, para um bar que era localizado na Rua Mal. Floriano, ao lado da CEEE, onde hoje fica o estacionamento do Posto 24 horas. Neste estabelecimento – que , anos depois foi intitulado de forma pejorativa como “Pensão dos Loucos” (pois abrigava o famoso Bolívar, aquele barbudo do Café Central, o Pítia e, depois, o alemão Ary – todos “fora da casinha” ou “pinguços” rs.) -, surgiu um mistério sobre nossa mãe., que me intriga até hoje, ela fazia pasteis, para satisfazer a clientela, principalmente, dos antigos amigos daquela estatal de luz. O mistério: onde e como, será que a d. Amélia, colona, que era, aprendeu a fazer pastel?! Será que foi com algum pensionista da Pensão Familiar?

Mesmo sendo piá (criança), não me lembro de ela ter feito pasteis na pensão – daí o mistério e a curiosidade que nutro, até hoje. Mas, falando em pastel, eu e o meu saudoso irmão, Nadir, viramos fãs de pastel (e, quem não é?!). De tanto comer essa iguaria, nós, pegamos a mania de botar fora o recheio de carne; comíamos, só a massa, eis que havíamos enjoado do recheio. Preciso esclarecer que, nesta época se fazia pasteis de qualidade, portanto, gostosos – daqueles que, ao fritar, se enchiam de ar (risos).Tínhamos um vizinho, que tinha uns quantos filhos (6 ou 7, não lembro) e, o mais novo, o Jusantonio virou um grande amigo, diria que, por interesse, pois ia lá em casa para brincar comigo, só para comer o pastel da nossa mãe (risos). Um pequeno parágrafo – Anos depois, já no Fogão Gaúcho (onde fomos ecônomos), a pasteleira da casa, era a Ercy – que aprendera a arte com a mãe, tarefa esta de que a mana se orgulhava muito (até hoje, inclusive). – Agora, adivinha. quem era o encarregado de ir ao açougue buscar carne moída para o  guisado do pastel? Esse escriba, é lógico! Sobre essa minha ida ao açougue, tem uma historinha interessante e engraçada em forma de mico. – Ocorre que, eu estava no  terceiro ano do Primário (hoje, Fundamental) do Rodolpho,  nesta época estava tentando aprender a assoviar, assovio este, com os lábios de forma diferente do convencional. Em certa ocasião, durante a aula, tentei dar um assovio, (imagina!), sendo que este, se materializou literalmente. A professora (Auda, ou Alda Schirmer) não teve dúvida, me botou para forma da sala.

Noutro dia, quando fui buscar carne com o “pirex vazio, cometi o mico que citei: coloquei o recipiente entre a boca e o ouvido e assoviei, para ver no que dava. Gente, quase fui ao chão, de tão tonto que fiquei, pois saiu um estridente som do assovio como nunca e, foi ali, que fiquei sabendo que havia aprendido a assoviar daquela forma. Mais tarde, já adulto, aprendi a assoviar, com dois dedos na boca, sendo que essa “nova forma” – com os dedos – virou a minha marca registrada nos jogos que ia no Beira-Rio, quando saia do estádio,  já no túnel. Meus parceiros (o Roberto Pacheco, por exemplo) de jogo, são testemunhas. Como o assovio com os dedos, era feito com o indicador e o polegar esquerdos, hoje, devido as sequelas do AVC no lado esquerdo, não consigo dar o meu tradicional assovio, que era um dos mais estridentes e mais fortes, que já vi. Seguidamente, sonho que estou assoviando muito forte, em lugares fechados, sendo que, as pessoas no entorno  pedem para parar, pois não aguentam o som estridente e alto insuportável. Isso em sonho – repito! PS: se alguém se identificar nessa pequena história, e em situações iguais, e/ou semelhantes, gostaria que se manifestasse. Um fato que não esqueço, apesar de não ter acontecido comigo mas sim, com o meu irmão, Nadir, foi que ele levou uma tunda da mãe, tudo porque ele andou “roubando”, melhor, se apossando – porque, filho não rouba de pai –  de dinheiro do caixa para ir se divertir em um parque de diversões, com os amigos, – pior, pagando para estes se divertirem, também (dando uma de pato! O Nadir, sempre foi bonachão e bondoso!). Parque, este, que ficava em um imenso terreno baldio,  onde hoje, é o Edifício Alvorada. É, gente, o tempo passa – ou, voa! Nos dias de hoje, já fazem 64 anos da nossa vinda à nossa querida Taquara…putz!

Reminiscências de um passado, que não volta mais! PS: como éramos de Padilha, não deu outra: ainda jovens, levamos a “pecha” de padilhanos e, nós, principalmente, o irmão mais velho, Sergio, era chamado pelos “amigos” (eu falei, amigos) de “Padilha”, acho que até hoje. Ainda por cima, com o nosso linguajar alemão/aportuguesado que a nossa mãe nos “obrigava” a falar, pois, ele não entendia o português com clareza. Outro dia, um amigo   contemporâneo, que mora em Florianópolis/SC, me perguntou, pelo Padilha/Sergio (risos). É o estigma que se carrega, vindo da colônia…é brabo! Um abraço a todos!

Por Rui Fischer
Aposentado, de Taquara

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