Caixa Postal 59
Esta postagem foi publicada em 8 de março de 2013 e está arquivada em Caixa Postal 59.

A quem se deve a vida

Após um acontecimento trágico como, a título de exemplo, o ocorrido em Santa Maria, muito nos fica para refletir em diferentes aspectos. A fragilidade da vida, a inconstância traiçoeira do acaso (ou do destino?), a imprudência humana, a falha irreversível.
É em falha que nos sentimos quando por algum motivo alguém nos salva. Existem muitas maneiras de ser salvo, mas em todas elas há algo em comum: o desconcertante e agradecido estado de desamparo em que cai quem foi socorrido. E, se para tanto tiver sido necessário que o outro se colocasse em risco por nós, tal sentimento cresce consideravelmente.
Como a maioria dos que obtiveram informações a respeito de tão devastador fato, acompanhei pelos jornais alguns casos de jovens que – tendo sido poupados da morte pela ágil intervenção de outros que no afã de repetirem a manobra perderam suas vidas na Kiss – tomados de grande gratidão, buscaram conhecer as famílias de seus salvadores. Estão, provavelmente sob uma grande pressão autoimposta, sem saber como demonstrar o quão gratos se encontram. Afinal, a partir de agora, quantos despertares pela manhã ficarão devendo eternamente aos mártires? Parece-lhes, creio eu, que algo de muito grandioso deve ser feito de suas vidas então. Já não podem perder sequer um minuto, pois precisam viver por si e pelo que morreu para que ali pudesse hoje estar, e cada sorriso, sorvete, filme, lágrima, música, abraço…será dedicado ao salvador para assegurar que sua precoce partida não tenha transcorrido em vão.
Tudo até aqui foi para dizer que, se alguém dá a vida por nós, isso é muito mais do que qualquer um pode em sã consciência almejar e não há nenhuma maneira de sermos gratos o suficiente. Não os culpemos por sentirem culpa, é absolutamente natural. Assim sendo, chegamos a nos compadecer desses jovens porque esquecemos que de alguma forma estamos na mesma situação.
Sim. Alguém morreu por nós, por todos nós, mesmo tendo a opção de não fazê-lo, mesmo sabendo que sua morte se daria em terrível agonia e que apesar de seu poder se sentiria exatamente como um mero mortal acreditando-se em sua dor abandonado por Deus e por todos. Sim, ainda assim Ele o fez, e por acaso em consideração a isso estamos nós tentando fazer de nossas vidas algum tributo?

Juliana Daniela Schneider
Estudante universitária, de Taquara

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