Rafael Tourinho Raymundo
Esta postagem foi publicada em 31 de agosto de 2018 e está arquivada em Rafael Tourinho Raymundo.

A saída nem sempre é o aeroporto

A saída nem sempre é o aeroporto

Dois mil milionários brasileiros deixaram o país e foram morar no exterior em 2017. Segundo relatório da empresa de pesquisa de mercado New World Wealth, a evasão de fortunas é sintomática. Ela escancara problemas nacionais como a instabilidade econômica e o medo da violência.

Se está difícil para os ricos, imagine para a classe média assalariada. Não é à toa que tanta gente faça as malas e vá tentar a sorte em Portugal, na Austrália ou na Irlanda. São lugares receptivos e, aparentemente, com uma qualidade de vida melhor que a daqui.

Eu mesmo já ouvi que deveria entrar nesse grupo. “Você fala línguas estrangeiras e tem formação acadêmica. Não pode ficar para sempre em Taquara”, disseram-me mais de uma vez. E, por muito tempo, acreditei. Achava que jamais seria feliz morando no Vale do Paranhana. Pensava que minha cidade nunca ofereceria boas oportunidades profissionais ou a chance de eu viver minha vida pessoal plenamente.

Porém, a Terra dá mais voltas que nossos sonhos adolescentes. Sempre encontrei serviço sem precisar mudar de endereço. E não estou sozinho. Dados do Ministério do Trabalho apontam que 98% dos empreendimentos do Brasil são micro ou pequenas empresas. Elas respondem por 70% dos empregos formais, principalmente nos municípios do interior.

Em outras palavras, são os negócios em cidades pequenas que fazem a economia girar. Portanto, a mão de obra qualificada não pode estar restrita aos grandes centros urbanos – ou, pior ainda, à margem oposta do Atlântico.

Claro que existem dificuldades em solo tupiniquim. Nosso poder de compra é baixo, a criminalidade assusta e até há falta d’água de vez em quando. No entanto, a vida nem sempre é mais confortável no Velho Continente. Conheço sujeito formado que precisou engavetar o diploma e recomeçar do zero para viver na Europa. Em outro caso, a pessoa desistiu do sonho do “primeiro mundo”: a cada ida ao supermercado, quando se atrapalhava no idioma local, ela era vista como forasteira e sentia-se mais isolada. Acabou retornando ao Rio Grande do Sul para ficar perto dos amigos e da família.

Respeito e admiro quem decide respirar novos ares. Viajar faz muito bem. É assim que conhecemos culturas, entendemos diferentes perspectivas e ampliamos os horizontes do pensamento. O mundo é bem maior que nosso quintal.

De outra parte, após tantas andanças pelo globo, é sempre bom ter um quintal para onde retornar. E qual paragem melhor que a própria comunidade onde nascemos e crescemos, aquela que conhecemos tão bem?

Eu já tive vontade de ir embora. Hoje, acho mais produtivo ficar onde estou. O Vale do Paranhana tem empreendedorismo, tem iniciativas culturais e tem ações solidárias. Ainda há muitos problemas, de fato, mas cabe aos moradores da região atuar para resolvê-los – seja por meio do voto, seja com o próprio trabalho.

Existem outras saídas além do aeroporto. A grama do lado de lá pode até parecer mais verde. Só que, se todos pensarem assim, não restará quem cuide da grama daqui.

Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista de Taquara
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