Haiml & etc.
Esta postagem foi publicada em 24 de setembro de 2021 e está arquivada em Haiml & etc..

A segunda dose, por Luiz Haiml

A SEGUNDA DOSE

Foi um dia outonal pesado, cinzento, frio, chuvoso, mas no momento em que fui com o colega Valmor, para a primeira dose, o clima dera uma trégua. E também não havia filas, mal chegamos, ao meio dia, e já fomos atendidos.  Nunca tive problemas com remédio algum, não tenho alergias, fiz várias cirurgias, quando tiro sangue fico olhando o processo, então fui tranquilo, mesmo sabendo que poderia ter desagradáveis sintomas depois.

Nem dor no braço tive, isso até por volta das cinco e meia da tarde, quando sensações  estranhas começaram a me tomar: uma inquietação, tremores, frio que não era mais apenas o que vinha do mundo externo, mas de mim, e a mente flutuava, sem querer, e a esse inquietamento juntavam-se às preocupações próprias do dia, e tornei-me ríspido, desagradável, irritadiço. Eu não estava em casa, e só ansiava por chegar lá, quando então não vi outro remédio a não ser me enfiar na cama. Tremores, boca secando, e dai a febre. Paracetamol, uma noite mal dormida. No sábado, um pouco melhor. No domingo, já normal, mas iria passar aquela semana com certa ânsia de vômito. Mas então eu estava feliz, até meu psicológico melhorara, a vacina me provocava uma certa segurança, uma certa vantagem sobre o que vem ocorrendo, sobre o que tem, triste, e inesperadamente,  tirado de nós, familiares  e amigos. Mas eu estava firme, iria vir a segunda dose, e, com sintomas ou não, eu iria enfrentá-la

Desta vezo dia estava lindo, o ar frio se ia. Desta vez tinha fila, demorou um pouco, e eu, com o Valmor de novo, parceiro de sempre. Eu já havia prevenido todo mundo em casa“ pessoal, já sei como funciona, quando bater a larica vou tentar me controlar melhor, e, quando  eu começar a virar Hulk, me enfio logo no quarto,  me tranco lá”. Meio-dia de novo, a picadinha sagrada, e tudo ia segundo mais tranquilo que a outra vez, consegui me segurar por um longo tempo, mas, lá pelas nove da noite,  não deu mais: cama, tremores, boca seca, calor e frio ao mesmo tempo, um pouco de febre de novo, dor em várias partes do corpo. Se repetiam os sintomas da vez passada.  Só que desta vez, para pior, e eu não estava feliz. Se a primeira dose me dera uma determinada perspectiva, a segunda, porém, me levou por outro caminho. Nos febris delírios dos sintomas eu tive uma visão, uma visão do abismo, do abismo em que estamos todos. Me veio a ideia de que nossas vidas, tão preciosas, tão sagradas, não são nada. E não são, pois estão nas mãos de outros. De outros que nem conhecemos, que nunca ouviram falar de nós, de outros que não mereciam estar aqui neste planeta junto conosco. É, e isso é deprimente. Gente que cresceu, por alguma razão, sem o amor pelo próximo, que não teve a chance de aprender tal amor, ou se a teve, a ignora, e por isso faz, perdoem a linguagem, mer…com o mundo, com a vida alheia. Sim, nossos destinos, que achamos  tão nossos, nosso livre arbítrio ( que na real  só vai até a esquina) nosso cotidianozinho,  tudo isso, de uma hora para outra, é virado de cabeça para baixo por tais criaturas.

Assustador, não?  O ser humano se acha tão superior, e, no fundo, não passamos de formigas. E o que acontece com as formigas, sem nem se dar conta são esmagadas, aos milhares, sob nossos pés. Pensei comigo, porque precisamos passar por isso, por esses tormentos físicos, psicológicos, por incertezas, tristezas e perdas trazidas pela mão nefasta de uma doença criada por terceiros? Cheguei a conclusão de que estamos neste mundo aqui é para sermos cobaias,  conhecer o sofrimento e aprender a lidar com ele,  diminuí-lo, atenuá-lo. E até para isso me falta a lógica.  E é assim e pronto. Aqui não é o paraíso. Não se engane. Aqui é um cercado de experimentos.

E agora vem a ideia de uma terceira dose, necessária por causa das variantes que não cessam de surgir, e quem sabe até de uma vacinação que seja para o resto das nossas vidas. E agora nossos adolescentes já precisam passar pelos incômodos, e inquietações, proporcionados pela vacina, e, logo mais, serão nossas  crianças, e a culpa disso não é apenas do própria doença, mas também daqueles que todo o tempo não quiseram se cuidar, dos adultos que zombam do vírus, da vacina, e não querem se vacinar. Pois é. Nosso filhos talvez agora estejam pagando por culpa desses. Então, meu irmão, chegou a hora de repensara vida. Infelizmente temos o Covid, mas nele há uma mensagem: melhore espécie humana. Dá para melhorar, quem sabe atenuando o número de ignorantes que andam por ai. Melhore, melhore a tua casa, e já será um começo. Ajude as pessoas, ame as pessoas, ajude os outros seres, tenha compaixão, não importa o resultado, não importa se houver um céu ou não. Não desista. Simplesmente faça. De uma forma que, quando as pessoas quiserem jogar uma pedra, uma bomba, uma doença sobre os outros, quando estiveram a ponto disso, no lugar, espalhem flores.

Por Luiz Haiml
Professor, de Taquara
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