
Pode soar como contradição para alguém com um currículo tão extenso, mas o músico taquarense Grecco Buratto nunca seguiu um roteiro pré-definido para a carreira. De passagem por Taquara, após se apresentar com Lionel Richie no festival The Town, no último dia 13, ele contou em entrevista exclusiva à Rádio Taquara que o caminho foi se construindo a partir de convites inesperados, ligações de última hora e da disposição em nunca dizer “não” quando a música chamava. Como costuma resumir, sua trajetória foi feita de “networking, estudo constante, disponibilidade e disposição para aceitar oportunidades”. Mesmo sem saber exatamente onde isso o levaria.
Um exemplo claro disso aconteceu no início dos anos 2000. Já vivendo em Los Angeles, Grecco foi chamado para substituir, de forma temporária, o guitarrista de uma banda latina que precisou se afastar por um problema de tendinite – no jargão musical, tornou-se um “sub”.
Foi esse acaso, relembra o músico, que o colocou em contato com Bill, ligado ao lendário pianista Sérgio Mendes (1941–2024), um dos responsáveis por colocar a bossa nova e o samba em palcos internacionais. Bill o indicou para um teste de fogo: dominar um repertório extenso e complexo. Dez dias depois, o taquarense já estava ao lado de Mendes, integrando sua banda por dois anos.
O papo foi assim, relembra Grecco:
“O Bill falou: ‘o cara que está com o Sergio não está indo muito bem. Posso te indicar para um teste?’ Claro que aceitei. O teste seria um show em Miami. Ensaiamos, estudei o repertório, escutei os discos, ensaiei com a banda e com o Sérgio, e fizemos o show. Ele gostou, e assim comecei a tocar com Sérgio Mendes de 2001 a 2003”.

Daí em diante, cada show e cada gravação funcionaram como trampolim para o próximo. Muitas vezes, sem garantias.
“Um produtor me chamou para gravar, mas disse que não podia pagar naquele momento. Falei: ‘cara, vamos fazer assim, me paga uma pizza, paga a gasolina, e em um dia em que eu não tiver outro trabalho, eu venho aqui, passo a tarde e a gente grava, tudo certo'”, propôs.
E Grecco foi. Mesmo sem receber. Bem, não naquele momento.
“Dessa sessão de gravação vieram contatos que me levaram a Boyz II Men, Earth, Wind & Fire, Pink e até a trabalhos no cinema, como na trilha de ‘A Filha do Presidente‘”, conta, citando o filme de 2004 dirigido por Forest Whitaker.
As turnês vieram em seguida, primeiro com bandas independentes e depois com nomes de peso. Com Gwen Stefani (No Doubt), o ambiente era caloroso: a cantora, junto do marido, Blake Shelton, chegou a receber toda a equipe em sua propriedade, com direito a quadriciclos e churrasco. Já em outras produções, como na da cantora Anastacia, o convívio era mais restrito: profissionalismo nos ensaios, foco no palco e pouco contato fora dele.
Com Lionel Richie, o hitmaker ex-The Commodores e coautor de ‘We Are the World‘ ao lado de Michael Jackson, a dinâmica foi diferente: a parceria se consolidou com o tempo, até que Grecco se tornou parte essencial da banda ao vivo.

Aos 76 anos, em plena Say Hello To The Hits Tour, Lionel, uma das últimas vozes da era Motown e ícone do soul e do funk americanos, mostra que seu segredo vai além da música, refletindo também na forma como valoriza e inspira sua equipe.
“O Lionel tem plena consciência de que, se a equipe dele estiver feliz, cada pessoa vai entregar 120% da sua energia no trabalho”, declarou Grecco recentemente a um podcast.
Quando Grecco tremeu
Um dos momentos mais marcantes aconteceu em 2017, quando surgiu o convite para trabalhar com Roberto Carlos, que partiu de um contato do diretor musical do projeto, Tim Mitchell, com quem o taquarense já havia trabalhado na última turnê da cantora Shakira. Grecco, que à época acompanhava o artista asiático JJ Lin, o que demandava muitas viagens à China, conta que ligou imediatamente para sua equipe em Singapura.
“Expliquei que era uma oportunidade única, que eu não podia recusar. Me comprometi a preparar alguém para me substituir, se fosse o caso. Mas não tinha como dizer não”.
O encontro aconteceu em Londres, no lendário estúdio Abbey Road, onde o Rei gravou um DVD. E, apesar da bagagem internacional, ele admite: foi uma das poucas vezes em que sentiu nervosismo antes de conhecer um artista.

Projetos pessoais e futuro
Fora das turnês, Grecco equilibra a vida entre produções e projetos autorais. No estúdio, trabalha em novas composições em parceria, com previsão de lançamento para o próximo ano. E também mantém ‘The Heart and the Matter‘, projeto de música voltada à meditação e ao universo new age, fruto de experiências em excursões com artistas desse estilo.
Além de revisitar o passado e falar sobre a carreira, o músico também abriu espaço para projetar os próximos passos.
“Quanto aos próximos passos, sigo tocando com o Lionel Richie e tenho shows confirmados até janeiro, com outras datas em negociação. Paralelamente, estou focado na produção musical, tanto das minhas composições quanto de trabalhos em parceria no estúdio. A ideia é concluir e lançar esse material em março do ano que vem, já que antes o calendário fica tomado por festas e Carnaval”.
Os early days da “profissão dos sonhos”
No começo dos anos 90, o rock estava no topo do mundo. Do hard rock ao grunge, passando pelo funk metal e o power pop, o gênero rolava solto nas FMs e na MTV. O fenômeno também era hiperlocal: Taquara fervilhava, e foi nesse cenário que o adolescente Grecco, que começou aos 8 anos, começou a se afirmar.
“Era uma época bem efervescente, tinha muita coisa de banda rolando aqui na região”, lembra. Ele fazia parte da Matrix, ao lado de Duda Rosa, Sidegum, Carlinhos Candemil e Kiko. Os ensaios aconteciam em porões pouco iluminados na Sebastião Amoretti e, depois, na rua Ernesto Alves.
“Lembro dos ensaios, de estudar guitarra, de ir a Porto Alegre pra tocar, dos nossos shows, dos sonhos… já estava com a cabeça focada na escola de música que eu cursava”, recorda o músico, que em Taquara também ficou conhecido com a banda Caminhos Incertos.

Os shows eram tanto autorais quanto covers, e Grecco recorda momentos que marcaram: abrir para a Bandaliera no Clube Comercial, depois em Parobé, ou tocar em festivais em Cidreira com bandas de Porto Alegre, no último verão em uma praia gaúcha antes de ele trocar de geolocalização.
“A gente assistia a outras bandas com bastante curiosidade e respeito, em lugares como o Original de Fábrica [extinta casa noturna taquarense]… o nível era muito alto e os caras mandavam muito bem”, comenta, citando grupos famosos na noite da época, como Rola Stones, Kooks, Cactus Jack, Dama da Noite, entre outros.
Desde cedo, a formação técnica de Grecco foi intensa. Ele estudou com Duca Leindecker (Cidadão Quem e Pouca Vogal), Frank Solari, Edilson Ávila e Marcos de Ros, em Caxias do Sul. Paralelamente, devorava referências internacionais.
“Escutava Joe Satriani, Eric Johnson, Steve Vai, Van Halen… bandas como Dire Straits, Police, Iron Maiden, Rush, Pink Floyd. Também pegava CDs emprestados do Armando Severo, do Yes, uma coletânea de jazz da Atlantic Records… e escutava Pat Metheny, Chick Corea, Allan Holdsworth, Stanley Jordan”.

Para ele, esses primeiros anos não foram apenas sobre técnica: foram sobre experiência e energia.
“Abrir pra Bandaliera no Clube, sentir a vibração do público… isso molda você. Mesmo hoje, tocando para grandes plateias mundo afora, aquela sensação de estar ali entregando música e vivendo o momento é insubstituível”, afirma.
Grecco também falou sobre a sensação de tocar em palcos grandes e com músicas reconhecidas mundialmente.
“É uma profissão dos sonhos, e junto com isso vem toda a preparação, o foco e a responsabilidade de estar ali para entregar o melhor. Você precisa servir à música e ao artista, mas também encontrar o momento de se desligar e simplesmente deixar acontecer no palco. E, sempre que possível, ter consciência de que você está realizando algo que sempre sonhou”, relata.
Em 1995, Grecco deixou Taquara rumo a Los Angeles, carregando não apenas a técnica, mas a disciplina adquirida nos porões de ensaio, a diversidade de influências e a energia de tocar para um público apaixonado. O resto é história.



