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Publicado em 27/03/2020 18:55 Off

Pedro Rocha corre, corre muito. Sempre correu numa estrada de desespero, sempre. Mas agora há sentimento gritado dentro: precisa correr se quiser continuar vivo. Os pés, dum couro endurecido na vida judiada, vão deixando marcas no chão de relva. Por todos os lados é só campos em grama verde ainda úmida pelo sereno. E Pedro corre. As pernas pretas e fortes no limite do esticado. A respiração fazendo barulho. Corre, Pedro, corre. Ele pensa que não deveria sofrer isso. Não é escravo. Já nasceu livre. O mundo está liberto da escravidão, dizem. Tem lei que afirma isso. Só que ele sabe, a lei não foi feita para todos. Melhor correr, lutar seria desigual, não sairia vencedor. Então, corre.
Estão chegando, dá pra ouvir o trote dos cavalos. A jaguarada acuando perto. Pedro em disparada pelo potreiro. Logo na frente há uma taipa de pedra. Taipa erguida pelo seu povo em tempos longes. Tantas decerto as chicotadas em lombos suados de carregar pedra. Quanto sofrimento e solidão no alinhamento das pedras. Ele se aproxima, precisa pular para o outro lado. Os cavalos não haverão de saltar. Pedro Rocha terá uma chance. Precisa ultrapassar o muro de pedras pra ficar vivo. Sabe que consegue. Sempre fora bom saltador. Negro forte, pernas grossas. A taipa cada vez mais perto. O resgate das forças no corpo brilhando suor. Então, o tiro. O estrondo seco ecoando nos pampas. O ardume no meio das costas. O cambalear forçado. Pedro Rocha se espatifa no chão.
Pedro Rocha se revirou cheio de dor tentando levantar-se, daí sentiu os braços e pernas rasgados pelos dentes dos cachorros que saltaram sobre seu corpo. Nisso, chegaram os homens a cavalo. Um deles, o mais velho entre os quatro, depois de assistir a cena por algum tempo, deu forte assobio e os cães se afastaram, antes, rosnaram alto, mostraram os caninos afiados, deram voltas sem sair do lugar, por fim se aquietaram. O homem, que dera a ordem aos cachorros, olhou para os outros, eles permaneciam um pouco distante, perto de onde os cães foram deitar. Ninguém disse nada. Depois ele apertou os calcanhares contra a barriga do cavalo e o animal andou pra perto do corpo ensanguentado. O homem não apeou, inclinou-se pra frente, e assim pôde olhar melhor para um Pedro Rocha em agonia. Aquele homem inclinado sobre a cela tinha o rosto riscado de faca. Embora não fosse recente, o talho estava avermelhado. Ele pareceu estudar o negro em sua frente por algum tempo. Então cuspiu no chão, puxou as rédeas com força, o cavalo deu meia volta e saiu. Todos seguiram campo a fora, sob um sol amanhecendo longe. Os cachorros iam atrás, espantando quero-queros em pequenos voos alardeados.
Pedro Rocha largado no chão sabe que não voltará para sua meia água de madeira lá na encosta do morro. Não verá sua Maria Isabel dar à luz seu filho. Nem terminará a cerquinha para separar os terneiros das vacas. Nem irá buscar a arapuca que deixou armada perto do bananal. Não vai devolver os pilas que tomou emprestado do pai. Tampouco saborear o doce de goiaba no aniversário de sua mãe. Pedro Rocha sentiu a carícia dum vento breve em seu rosto e soube que iria morrer. Ele sempre quis morrer sem dor. Morrer sem sofrimento, já que sua existência fora um amontoado de dores sem motivos certeiros. Fora angústia calada no trato com os outros. Fora dor até quando pensava. Fora uma vida inteira feita de pequenas mortes. Pedro Rocha só queria morrer pela última vez, sentindo saudade boa. E, a vida, que nunca lhe atendeu pedido, poderia fazê-lo agora.

Doralino Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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