Geral Paralelas
Esta postagem foi publicada em 15 de fevereiro de 2013 e está arquivada em Geral, Paralelas.

A vida dosada em fatias

Quando ainda não podia ter um diário, Clara registrou em memória iletrada as lembranças de sua existência rasteira.
Recordava que, desde sempre, nos lanches em família, recebia a ponta seca do bolo, porque seu irmão fora aquinhoado com o direito à parte mais nobre, o miolo fofo do amanteigado.
Assim, quando a mãe servia primeiro a Clara, cortava o doce pela cabeceira; para o filho, principiava a fatiar pelo centro.
Para si própria, a mãe contentava-se em servir das nascentes do bolo; para o marido, um pedaço do cerne polpudo.
Clara sentia-se desconfortável com sua fatia marginal, mas jamais questionou, porque lhe parecia serem os desígnios da vida.
Durante sua estada na casa materna, a menina aprendeu a intuir a importância das visitas que recebia pelo ponto de incidência do corte que era dado ao bolo.
Quando já casada e instalada em domínios próprios, Clara finalmente assumiu o manejo da faca. Sentiu grande prazer quando lhe coube cortar um bolo a seu próprio arbítrio. E desta vez serviu uma generosa fatia a si mesma – da ponta, como havia de ser; e ao marido deitou apenas uma modesta fatia – do mais fofo miolo.
(Publicado em 2011 no livro Academia in Litera, que reúne trabalhos de membros da Academia Lítero-Cultural Taquarense)

 

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