Quando ainda não podia ter um diário, Clara registrou em memória iletrada as lembranças de sua existência rasteira.
Recordava que, desde sempre, nos lanches em família, recebia a ponta seca do bolo, porque seu irmão fora aquinhoado com o direito à parte mais nobre, o miolo fofo do amanteigado.
Assim, quando a mãe servia primeiro a Clara, cortava o doce pela cabeceira; para o filho, principiava a fatiar pelo centro.
Para si própria, a mãe contentava-se em servir das nascentes do bolo; para o marido, um pedaço do cerne polpudo.
Clara sentia-se desconfortável com sua fatia marginal, mas jamais questionou, porque lhe parecia serem os desígnios da vida.
Durante sua estada na casa materna, a menina aprendeu a intuir a importância das visitas que recebia pelo ponto de incidência do corte que era dado ao bolo.
Quando já casada e instalada em domínios próprios, Clara finalmente assumiu o manejo da faca. Sentiu grande prazer quando lhe coube cortar um bolo a seu próprio arbítrio. E desta vez serviu uma generosa fatia a si mesma – da ponta, como havia de ser; e ao marido deitou apenas uma modesta fatia – do mais fofo miolo.
(Publicado em 2011 no livro Academia in Litera, que reúne trabalhos de membros da Academia Lítero-Cultural Taquarense)


