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Esta postagem foi publicada em 9 de agosto de 2019 e está arquivada em Penso, logo insisto.

Água Negra, por Plínio Zíngano

Do “Meu cinicário” – Quando leio/ouço/vejo anúncios de produtos, oferecidos por “tempo limitado”, logo penso: limitados são os autores desses argumentos.

Água Negra

Na minha adolescência, décadas de 1950, 1960, circulava na sociedade uma frase, praticamente um eslôgã, de irônico e bastante depreciativo cunho político-ideológico, se é que fosse anormal tachar de irônico e depreciativo qualquer coisa referente a algum comentário sobre ideologia política. A origem era, sem sombra de dúvida, aquela turma para quem o mundo está dividido em “eles” – os exploradores –, e “nós” – os explorados e estamos conversados. Devo admitir, tudo dentro dos parâmetros usuais. É, mais ou menos, algo como “o meu time é melhor” e nada mais importa.

A tal frase mencionava “a água negra do capitalismo” referindo-se à Coca-Cola, a famosa bebida, naquele tempo, uma sexagenária saída muito mais forte da Segunda Guerra Mundial mercê de lances publicitários dignos de grandes conhecedores da psicologia, embora sem ultrapassar os limites da venda de um produto industrializado. O epíteto, porém, transformou o refrigerante em agente com atitudes e finalidades  lesa-humanidade. Mas… por que se falava tão mal da bebida?

Penso que, em primeiro lugar, essa maledicência é um caso de inveja. Não inveja do tipo “ele é mais bonito e isso é injusto”. Talvez minha explicação seja uma simplificação extrema de um fenômeno de magnitude tão impactante. Só devemos lembrar: sistemas econômicos e políticos têm de justificar a sua existência, sem afrouxar o controle sobre ela própria e a de quem se torna uma ameaça a essa existência. Uma das armas no combate ao inimigo é promover o seu descrédito, usando, inclusive, asneiras. O interessante é que sempre haverá alguém acreditando nelas!

Hoje, a frase maldita perdeu sua eficácia nociva, pois é politicamente incorreto associar aquela cor a algo prejudicial. Ficaria mal os inimigos do capitalismo fazerem a comparação. Por isso, omitiu-se a referência cromática, sem, no entanto, esquecer a crueldade capitalista na produção daquela água tão especial. Se, antes, a Coca era símbolo global de opressão, massacrando povos oprimidos, o foco foi mudado. Tornou-se uma decisão de cunho sanitário pessoal. Os detratores continuam batendo na tecla da bobagem e muita gente continua reproduzindo. Circula por aí uma lista de usos deletérios para a bebida. É só liberar o gênio preso na garrafa. Agora, ela serve para: soltar parafusos; dar brilho a moedas; polir cromados; tirar manchas do vaso sanitário; eliminar manchas de óleo do chão; limpar panelas queimadas; remover tinta; limpar azulejos; desentupir pias e esgotos e dar brilho aos vidros. Muita gente, por aí, inocentemente, acredita.

É de se perguntar a quem compartilha essas “informações científicas” se eles não se constrangem com o disparate. E, para criar um clima de bem-estar e amizade, ofereçamos qualquer um dos milhares de outros refrigerantes de cola existentes no mundo ou, até, um café. A cor será a mesma. Mas não é Coca-Cola!

Por Plínio Dias Zíngano
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