
Ainda é agosto e o mundo não acabou
Esse mês durou um ano na minha vida. Já não bastasse toda a carga dramática que 2020 possui, parece que subestimaram agosto. E com isso, veio todo o desgosto.
Do alegre mundo dos jogos que saí em julho, vou para as eternas filas de espera em hospitais. Por diversos motivos. Início, namorado. Depois eu. Amanhã, meu pai. Minhas mazelas são, de grosso modo, inefáveis, perto daqueles homens.
Preservando suas dignidades até então, vou me ater ao que me resta ao momento. Esperar mais. Da criatividade que tinha, restam migalhas de referências. Culpa minha que não sei escrever de forma explícita. Por mais que diga, não disse nada e assim o que foi dito pode não ser o que era, já que o fato é que o que se escreve é o que fica.
A redução do meu vocabulário foi-se também, como puderam perceber. O que faz uma escritora sem palavras? O que deixa uma escritora sem palavras? Por que logo as palavras? Antes eu perdesse as letras. “Consulte um dicionário de sinônimos, Krishna”. Concordo, mas não é isso que eu preciso agora. Porque até os dicionários eu perco. Perdi horas, prazos, dias, semanas e esse mês.
Às vezes, olho pro caderno e nem sei mais o que eu sabia. Ou ponho em cheque o que acredito ser o correto. E penso, penso, penso, até que foi. A caneta ainda em mãos, a folha ainda em branco, o coração apertado. E a vontade de ter uma banda de rock. Todo mundo tem um plano para se caso a vida desse certo.
Desse mês, guardo o dia dos pais fora de época. No primeiro final de semana, fiz uma receita de bolo, muito bonita e gostosa, e levei para o almoço. O melhor presente é feito com as mãos. Um finde antes do dia dos pais “real oficial”. Já notava o estado da criatura. Meu pai é desses que anuncia agosto como o mês do desgosto. Tudo de errado dá nesse mês, em todos os anos da vida dele, em todos os anos da vida em geral. E dessa vez, eu acreditei.

Louco por um doce, ficou surpreso com a torta. Agradeceu pela lembrança. Deu umas três colheradas e se rendeu. O restante da família ficou se olhando. “Ele tá mal”. Ajeitando a fatia generosa (porque eu corto mal) na geladeira, ainda anunciou com ciúmes: “É, porque naquela tua coluna, tu só ama o Natan”.
Nem quis rebater, porque não é verdade. Não se contraria autoridade. Só o que sei, é que tudo foi de mal a pior desde aquele dia. Longas esperas no hospital, até os diagnósticos. Por sorte que não é o mal da pandemia. Enquanto escrevo, ainda está aí, se recuperando. E pela primeira vez, não vai ver meu texto na íntegra. Muito menos ir me visitar no trabalho novo, que dessa vez, eu senti falta. Já que me colocou em tantas situações nos meus locais de trabalho que eu quase morria quando tu aparecia na porta. Agora, meio que me dói saber que essa possibilidade não existe no momento. Acho que tu iria gostar de mer ver lá.
Mas quando ler, saiba que ainda é agosto e o mundo não acabou. Nem tudo o que escrevi foi sobre amor, nem tudo o que escreverei será sobre. Afinal, como bem dizia na minha adolescência “amor não enche a barriga”. Quando sair daí, já vai ser setembro. E em setembro, comemoramos o teu aniversário. Te espero, véio. De novos dias são feitos o mundo. De novas perguntas. De novas chances.
Por Krishna Grandi
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