Haiml & etc.
Esta postagem foi publicada em 17 de fevereiro de 2017 e está arquivada em Haiml & etc..

Além da Casca

Estou sentado na área da casa da praia. Do outro lado, em frente, o terreno que continua baldio. Ninguém ainda construiu no lugar onde, há muitos anos atrás, apareceu a mim o Gautama.

Foi num inverno. Havia uma árvore de baixo porte, sob ela surgiu, em lótus, em tranquila beatitude, aquele que o mundo viria a chamar de Buda. A árvore não esta mais ali, o terreno agora tem mato alto em seu interior, casas por tudo ao seu redor.

Sim, eu vi quem uma vez foi rico filho de nobre, do qual a realidade era escondida pelas paredes e muralhas do palácio. Desconfiado de que o enganavam, que havia mais do que as riquezas e o conforto do seu lar, o rapaz um dia foge de casa, o resto é lenda.

Há um belo filme do Bertolucci sobre isso, “O pequeno Buda”. Alterna a história de Gautama, no passado, com a busca de um supremo líder tibetano, no presente. Um Kenau Reeves novinho – antes de “Matrix” – muito bem no papel de Gautama.

Hermann Hesse, alemão de alma visionária, inquieta e vasta obra, usou o tema em “Sidarta”; leitura que ainda hoje impressiona, e que, junto com “Walden – vida nos bosques”, de Thoreau, conduziu a geração pé na estrada e os hippies, e a todos que buscaram novas alternativas às convenções que já lhe vinham prontas desde o nascimento.

Gautama me surgiu, preciso dizer, sem drogas, hipnotismo ou líquidos embriagadores por minha parte, eu apenas meditava, aproveitando os abissais silêncios permitidos pelas pequenas cidades praianas, principalmente nos invernos.
Hoje é fevereiro, embora haja uma indolência na tarde, uma agitação nas vizinhanças, embora o terreno tenha sido rodeado por longa, alta e farpada cerca, e mesmo que uma casa nele um dia seja erguida, continuar ali, a lembrar-me que venceu a matéria, que superou Maya (Ilusão) e conheceu a Verdade.

Enfim, tu precisas começar a pensar no que há além das paredes, das telas, das peles, das casas que te rodeiam, pois aqui onde estamos, onde caminhamos, conhecemos apenas uma porção, um pedaço, um aspecto da nossa jornada. Estás preparado para o resto que falta? Para aquilo que existe, mas tu ainda não podes ver?

A realidade, quando se revelar em sua total completitude, será bem mais impactante do que a que enxergamos agora com os nossos frágeis globos oculares.

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