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Esta postagem foi publicada em 12 de março de 2021 e está arquivada em Penso, logo insisto.

Alfabetização precoce, por Plínio Dias Zíngano

Do “Meu cinicário” – A lenda é a mais religiosa de todas as manifestações literárias. Basta ver que todo o mundo diz que “reza a lenda”. A conclusão é óbvia!

ALFABETIZAÇÃO PRECOCE

Tenho, no meu computador, um texto escrito por uma jornalista especializada em neurociências e neuropsicologia, cujo título tomei emprestado, nomeando meu comentário desta semana. Ele foi criado em 2015 e arquivado na minha máquina visando a futuras referências. Pois bem, estou mencionando-o em uma das tais “futuras referências”. O artigo trata, grosso modo, da ansiedade de pais e professores na tarefa de alfabetizar seus pimpolhos. A dos primeiros, é a preocupação em bem preparar seus pequenos e a dos segundos, para ver suas turminhas progredindo e dando provas de um trabalho bem realizado na escola (é louvável – necessitam-se professores dedicados).

Como de costume, quando se trata deste tipo de assunto, surgem os mais variados entraves científicos para se concluir por um trabalho bem realizado. A jornalista lembra na reportagem: “algumas áreas do cérebro envolvidas na leitura, como o giro angular, não estão suficientemente desenvolvidas para que a decodificação faça algum sentido”. Ignoro a natureza do tal “giro angular”, no domínio da mais importante habilidade humana jamais realizada. Tudo depende da leitura, todo o progresso científico, o artístico, o tecnológico. Por causa dessa fantástica habilidade, as nações do mundo tanto insistem na alfabetização de seus compatriotas. E aqui, vai um pequeno petardo: ler é superior a escrever, embora a segunda opção exija mais dedicação na produção de textos com conteúdos. Ou seja, fazendo um resumo da ópera, você pode aprender a ler sem saber escrever, mas nunca escreverá sem saber ler. Ao escritor é condição sem a qual não (a famosa conditio sine qua non) saber ler; o contrário, esqueça. A leitura (consequentemente, alfabetização) é um fim em si mesmo.

O título do texto daquela jornalista peca pelo uso indevido de uma palavra: “precoce”. Se está sendo feita uma análise imparcial do assunto, chamá-lo precoce já posiciona a analista como contrária a um tipo de alfabetização. “Precoce” significa “adiantadamente, fora do tempo”. Quem pode ser alfabetizado antes do tempo e qual seria esse tempo certo? À jornalista, devo dizer que, felizmente, não conheceu minha mãe. Fui alfabetizado em 1948, aos quatro anos, e jamais tive problemas com o “giro angular”. Minha mãe era pouco mais do que alfabetizada, mas conhecia o quão importante era saber ler. Meu filho já lia aos três anos e minha neta, sem qualquer aula teórica, alfabetizou-se em casa, sozinha, durante a pandemia, aos cinco anos.

Toda essa catadupa de explicações científicas esquece uma coisa fundamental: a escrita foi inventada por analfabetos.

Por Plínio Dias Zíngano
Professor, de Taquara
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