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Esta postagem foi publicada em 24 de maio de 2021 e está arquivada em Penso, logo insisto.

Amizade Enxovalhada, por Plínio Dias Zíngano

Do “Meu cinicário” – Sem essa de falar em “ditadura militar”. Toda ditadura é militar. Ou você crê em submissão sem ser pela força? E quem garante a força?

AMIZADE ENXOVALHADA

Mais uma vez, volto a falar do tema amizade. Levo muito a sério este sentimento. Porque é um sentimento, concordam? Une duas pessoas ou uma multidão. O básico é a existência de, pelo menos, duas pessoas. Isso de um sujeito não ser amigo dele mesmo, é papo fosco literário. Por definição, a unidade é dois e livre de segundas intenções. Quando, numa suposta amizade entram em jogo outros interesses além dela própria, a coisa descamba para negócios, maracutaias, pilantragens. Amigos podem negociar entre si. Só que, em qualquer negócio, mesmo o mais liso e honesto, está implícito ganho de alguém sobre outro alguém. Uma amizade verdadeira refuga tal situação. Amigos verdadeiros têm quase uma religião: é o amor recíproco entre si.

Eventualmente, corre pela internete uma frase, decretando: “amizades de mais de sete anos continuarão por toda a vida”. Ignoro de onde saiu essa estatística. Talvez de um daqueles famosos estudos inventados para dar veracidade às afirmações de alguém. Não pode ser levada muito a sério. Entretanto, existem algumas amizades que ultrapassam, verdadeiramente, o limite mencionado. Eu posso ilustrar, apresentando, dois exemplos. Tenho um amigo há 72, e outro há 58 anos. Não são, apenas, conhecidos de determinada época da vida.

O Fernandes, morava na casa ao lado da minha, quando para lá nos mudamos em 1950. Na residência dele tomamos um porre de vinho num churrasco feito por nossos pais (eu com 5 e ele com 3 anos). Foi meu primeiro e último exagero alcoólico! O outro, Petry, compartilhou toda minha história militar, desde o serviço obrigatório no CPOR, em Porto Alegre, em 1963; depois o estágio obrigatório em Pelotas, no 9º RI, no início de 1966 e, finalmente, até 1970 o estágio voluntário em Santa Cruz do Sul. A vida militar terminou, mas continuamos nos vendo seguidamente. Suas famílias também estão presentes.

Por que este histórico? Porque, a amizade, que pode ser tão bonita, é posta em cheque frequentemente, como foi no caso da tragédia com o cantor Mc Kevin falecido, recentemente, após queda do 5º andar de um hotel no Rio de Janeiro. Apesar de todas as evidências indicarem acidente, o contexto aponta uma grande responsável. Segundo a mãe do artista, “ele era um bom menino, porém as amizades não”.

Embora compreensível, de dentro de sua dor, ela esqueceu que seu filho era um dos amigos.

Por Plínio Dias Zíngano
Professor, de Taquara
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