Caixa Postal 59
Esta postagem foi publicada em 27 de julho de 2012 e está arquivada em Caixa Postal 59.

Analfabetos em quê?

Fiquei pasma com a notícia recente dos índices apontados pelo Indicador do Alfabetismo Funcional dando conta de que 38% dos brasileiros com formação superior têm nível insuficiente de leitura e escrita e que apenas 26% são alfabetizados plenos. Pior, este é o mesmo índice registrado em 2001, o que significa que não houve evolução alguma de lá pra cá.
Frutos de uma educação desmantelada lá nos ensinos fundamental e médio, e não cabe aqui discutir os méritos dessa questão (sabemos das precárias condições de escolas estaduais, dos baixos salários dos professores, etc,), ainda assim é de se questionar como podem ser analfabetos funcionais acadêmicos com plenas condições de aprenderem diante da enxurrada de informações e de dispositivos tecnológicos que dispõem como suporte para evoluírem.
Não me refiro à educação formal para crianças e adolescentes que precisa ser conduzida, regada, aprendida, ensinada nas escolas e reforçada em casa pelos pais. Fico horrorizada com os analfabetos funcionais por opção, os que podem e têm as ferramentas para buscar mais, além do que oferecem os professores, mas que optam por navegar nas redes sociais em plena sala de aula, sem contar as infindáveis horas do dia e da madrugada em que ficam grudados na tela de um computador, utilizado para todos os fins, menos para a leitura e à reflexão crítica.
De alguma maneira, sei que todos somos analfabetos em determinadas áreas. Afinal não precisamos saber tudo. Eu sou uma analfabeta funcional em várias coisas, ainda que sempre tente aprender um pouco quando me surpreendo ou ignoro algo novo. Mesmo assim, é assustador ver alunos de curso superior sem a menor noção de como se constrói um texto básico (e nem me refiro aos artigos acadêmicos e científicos). Falo de uma simples redação ou de uma resposta dissertativa numa prova que escancara a carência deplorável de leitura e de entendimento dessa gente.
Ler, especialmente para esse um terço de universitários citados na pesquisa, é um fardo. Até porque, eles realmente não entendem/compreendem o que está escrito porque nunca desenvolveram o hábito da leitura e o pensamento crítico, e isso precisa ser semeado desde criança. Quando chegam ao ensino superior é uma tragédia.
É claro que há exceções e tenho visto pessoas de todas as idades que são exemplo, de 60 ou 70 anos estudando com afinco dentro das universidades. Por isso minha indignação com quem tem tudo e opta pela ignorância voluntária. Neste caso, analfabetos funcionais por livre arbítrio porque podem e devem entender o mundo que os cerca, basta abrir os olhos e ler a realidade através dos jornais, portais, revistas e, principalmente, nos livros, onde o cérebro viaja e alinhava conexões para o conhecimento e a imaginação. Há muitas viagens possíveis, mas tenho comprovado em andanças por aí que só a leitura é capaz de nos transportar para um universo de riqueza e crescimento interior.
A bagagem que levamos dentro de nós não pode ser roubada por ninguém. Ela nos acompanhará em qualquer outra viagem e será necessária sempre, mesmo que você se mude para o Pólo Norte. E de nada adianta encher a mochila de iPads, iPhones e tablets se, por dentro, você continuar vazio. Quando acessar seus dados pessoais verá que o HD da sua memória não tem nada gravado, ainda que esteja prontinho para receber um mundo de conhecimento. Basta adicionar o que interessa aos favoritos que farão a diferença em sua vida. Entendeu?

Roseli Santos
Jornalista

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