Geral Paralelas
Esta postagem foi publicada em 22 de fevereiro de 2013 e está arquivada em Geral, Paralelas.

Ao anoitecer

Vestiu a melhor roupa e saiu. O medo se dissipara depois que ela bateu a porta e respirou o ar frio da noite. Estranhamente, sentia-se bem. Não esperava perdão, nem compaixão, nada.
O café aqueceu o sentimento de liberdade que invadia sua alma, depois de tantas tentativas frustradas. A solidão parecia-lhe providencial, quase uma bênção, uma companheira, um álibi perfeito.
Por um instante chegou a lembrar dele, novamente, ali parado na sala, olhar perplexo e surpreso. Tarde demais. Era hora de partir sem arrependimentos, já que ele mesmo escolhera o final daquela história. Não conseguiu chorar, nem gritar, nem se revoltar com o destino de traição e mentira que ele traçou e que ela aceitou passivamente ao longo de dez anos.
Naquela quarta-feira ela não foi trabalhar. Acordou cedo, arrumou toda a casa, encaixotou todas as lembranças e esperou por ele ao anoitecer. A indiferença nem o deixou perceber que o olhar dela brilhava como nunca, cintilando o desejo incontido de, finalmente, ir embora.
E foi, vestindo a sua melhor roupa, deixando para trás tudo o que não lhe interessava mais. Ele não reagiu, não implorou, sequer talvez tenha se dado conta do que aconteceu. Enquanto ela sorvia mais um gole de café, a noite escura encobriu uma certa melancolia que insistiu em se manifestar, reproduzindo em sua mente o estampido dos tiros dentro do apartamento.

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