
Do “Meu cinicário” – Democracia não existe só para as tuas manifestações e opções políticas. Existe para TODAS as opções e manifestações, políticas ou não!
ARTISTAS
Uma das características mais marcantes do ser humano é a necessidade de criar coisas. Na ampla categoria “criar coisas”, os resultados podem ser de natureza utilitária como, por exemplo, a vassoura e a máquina de lavar roupas ou, ainda, de natureza emocional, como um poema, uma pintura. Mesmo contra a vontade de muitos, nós, por natureza, somos criadores. Isto, porém, não significa endosso geral das criações resultantes.
O campo mais conturbado deste assunto é o das artes. Como elas navegam no mar das emoções, atraem emoções, sentimentos, às vezes, descontrolados. Devemos admitir: um chuveiro funcionando mal, embora nada tenha de artístico, também pode gerar sentimentos bem violentos e desagradáveis, principalmente, nos gélidos dias invernosos, mas, sabemos, basta a troca do aparelho, ou da resistência e a paz volta. Não é o caso das manifestações artísticas. Aqui, como se costuma dizer, “o buraco é mais embaixo”.
Gosto da pintura, poesia, literatura, música, enfim, das coisas da natureza emocional! Não sou muito afeito à dramaturgia, com seus correlatos teatro e cinema. Em todas essas manifestações artísticas, entretanto, existe uma figura fundamental, coisa que, nas de natureza utilitária, não é muito promovida: o autor. Há uma tendência à santificação do artista autor de determinada obra ou estilo de obra, como se ele fosse a manifestação rediviva do próprio criador de todas as coisas. E esses autores desfrutam, abusadamente, da admiração dos seus contemporâneos. Aliás, não só autores de obras de arte agem assim. A honestidade manda-me citar as estrelas esportivas. Todos eles gozam de uma subserviência quase abjeta de nossa parte, simples humanos.
Um caminho mais rápido para obter reconhecimento no campo artístico é fazer algo de natureza diferente dentro da sua mídia de atuação. Seguindo esta lei, podemos justificar o aparecimento do cubismo, rompendo com os ditames da pintura clássica; do dadaísmo, tripudiando sobre a lógica do texto escrito; da bossa nova, transgredindo as fronteiras da harmonia na música.
E é sobre esse último item que quero falar. Morreu no último dia 6 de julho, o cantor e compositor João Gilberto, reconhecido como criador do movimento musical brasileiro chamado “bossa nova”, de ressonância mundial. Como mencionei acima, nem todos endossam as criações de natureza emocional, por mais apelo popular que possam ter. Sempre foi o meu caso com relação à bossa nova!
Por Plínio Dias Zíngano
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