Paralelas
Esta postagem foi publicada em 5 de maio de 2017 e está arquivada em Paralelas.

As criaturas mais perversas e injustas do mundo

São as mães! Desde pré-adolescente que não tenho mais dúvidas sobre isso, e a cada dia me convenço mais.
Aliás, foi ainda na infância que comecei a perceber os primeiros sinais desta verdade incontestável. Até comida elas negam! Pode haver coisa mais perversa? Veja o caso da minha mãe: ela insistia em mentir que os doces decorados haviam terminado, mesmo eu sabendo que as latas no alto do armário (onde eu não alcançava) estavam cheias deles, um mais bonito e delicioso que o outro. E ela me negava comer mais alguns, só porque eu já tinha devorado uns vinte no dia… Como uma mãe é capaz de tanta injustiça? E as mentiras, então? Elas me enlouqueciam, porque minha mãe achava que eram mentirinhas inocentes e necessárias, e eu as via como a maldade mais imperdoável de uma cerceadora dos meus direitos de criatura centro do mundo. Mas aprendi com este desvio de conduta dela. Por exemplo: minha mãe dizia que aplicar injeção não dói, como forma de tentar me convencer a aceitar o inevitável. Automaticamente, para minha filha, logo expliquei que aquilo podia doer sim, mas que seria uma dor passageira para evitar mal-estar maior e mais duradouro. Falei que o melhor era tentar relaxar a musculatura, para doer menos. Que injustiça! Tentar convencer uma criança a aceitar a dor! Com o tempo, minha filha mesma pedia por uma injeção quando a coisa apertava. Pobre vítima das minhas artimanhas! Enquanto isso, minha mãe ainda hoje tenta aplicar o velho discurso de que não dói nada! Perversa, acha que a “mentirinha inocente” vai funcionar com seus bisnetos digitais, que a cada dia tentam dar um nó nos adultos à sua volta.
Quando me tornei adolescente, as crueldades de minha mãe continuaram. Certa vez me pus a namorar um rapaz que ela achava inadequado. Eu a desafiei. Então, implacável, ela me disse: “Não posso mesmo te vigiar 24 horas por dia, então faça como quiseres, mas não venha chorar no meu ombro, que já carrega peso suficiente.” Aquela frase ficou atormentando o meu cérebro dono da verdade – quanto calculismo dela!
Quando eu finalizava o segundo grau, a malvada da minha mãe me deu um chega mais pra cá e disse: “Já é hora de começares a trabalhar, talvez eu não consiga bancar a tua faculdade sozinha!” Isso é coisa que se faça? Logo comigo, que era estudante aplicada e achava que já estava fazendo a minha obrigação!
Mais tarde, quando iniciei namoro com um rapaz 12 anos mais velho (hoje meu marido), ela ficou com seus para-raios para encrencas em alerta. Como sabia que de nada adiantava proibir, na primeira vez que saí com o rapaz, ela colocou dinheiro na minha bolsa e disse que eventualmente serviria para o táxi de volta, caso eu julgasse necessário abdicar da companhia do novo affair. Como assim? Jogar tão friamente com a capacidade de julgamento de uma inexperiente jovenzinha? Que omissão!
Às vezes me surpreendo que diante de tantos maltratos eu nunca tenha pensado em me vingar! Segui andando pelas próprias pernas, trabalhando muito (pobre de mim, fui induzida), e nunca sequer cogitei usar dos bens e recursos financeiros dela para aliviar minha jornada, ou cobrir despesas contraídas com irresponsabilidade. Se tive benefícios, e não foram poucos, foi pela insistência benevolente dela, minha amada mãe perversa. Serei sempre grata pelas maldades que ela cometeu comigo.
Mãe, te amo!
(Com carinho, dedico à minha mãe, e em reconhecimento a todas as mães que conseguem revestir seu amor de pulso firme para conduzir os filhos a uma vida digna, e de reconhecimento.)

Os artigos publicados no site da Rádio Taquara não refletem a opinião da emissora. A divulgação atende ao princípio de valorização do debate público, aberto a todas as correntes de pensamento.
Participe: [email protected]