Os artigos publicados no site da Rádio Taquara não refletem a opinião da emissora. A divulgação atende ao princípio de valorização do debate público, aberto a todas as correntes de pensamento.
Participe: jornalismo@radiotaquara.com.br
Publicado em 05/11/2021 14:41 Off

As variações possíveis da língua

Quem viveu a internet brasileira no início deste século deve se lembrar do Miguxês. Era uma maneira “fofa” e infantilizada de se comunicar nos ambientes digitais, trocando-se C por K, O por U e S por X. Algo como MigUxXx…ki SauDadi di vuxXxEIxXx!!!!!

Pitoresco, mas funcionava entre adolescentes. Houve até discussões sobre o perigo dessa “linguagem de internet”, que poderia prejudicar o aprendizado dos estudantes.

Isso não aconteceu. Conforme pesquisas da época mostraram, os jovens sabiam quando e onde recorrer a seu código particular – e redação de escola, com certeza, não era espaço para escrita alternativa.

O Miguxês foi um exemplo de socioleto, um conjunto de gírias e expressões usadas por um grupo de pessoas num contexto específico. Fenômenos assim são possíveis porque há muitos jeitos de falar, dentro do nosso idioma.

Um gaúcho para o carro na sinaleira e come bergamota no inverno, enquanto um paulista para no farol e come mexerica. Isso sem contar as conjugações como “tu foi” e “tu vai” – inimagináveis no português normativo, porém perfeitamente possíveis numa conversa coloquial. “É como a roupa: você tem a de dormir, a de passear, a de trabalhar. Toda essa vestimenta está atrelada às ocasiões. A língua também”, explicou Evanildo Bechara, gramático e imortal da Academia Brasileira de Letras, numa entrevista de 2008.

O emprego dessas variantes linguísticas é bem comum em produtos culturais, como filmes e novelas. Afinal, deve-se dar verossimilhança às personagens. Não seria natural uma criança soltar um “mamãe, tu foste ao supermercado comprar-me os acepipes que pedi?”. Já “mamãe, foi no súper comprar chocolate?” seria mais aceitável – pelo menos no Rio Grande do Sul, onde chamam mercado de súper.

Outro exemplo é a Publicidade. Recentemente, a Justiça Eleitoral lançou uma campanha incentivando os jovens a tirarem seu título de eleitor. O slogan é “bora votar”, sendo “bora” uma corruptela de “vamos embora” e, portanto, uma construção desviante da língua culta, ainda que adequada ao público-alvo da ação publicitária.

Neste país de infinitos socioletos, surgiu um movimento que vem sendo chamado de Linguagem Neutra. Trata-se de uma proposta para adaptar o discurso, abrangendo ao mesmo tempo homens, mulheres e pessoas entre esses dois espectros, como não binárias, intergênero e a gênero.

(Aqui cabe um aparte. As nomenclaturas podem confundir muita gente, mas não é porque eu ou você não entendemos algum assunto que ele deixa de existir, ou mesmo de ser relevante. Dar nome às coisas aguça nosso olhar para as compreendermos melhor, como já citei nesta coluna.)

Defensores da linguagem neutra sugerem algumas mudanças, como terminações mais inclusivas nas palavras coletivas (“todes” em vez de “todos”) e a adoção do pronome “elu” para quem não se identifica nem como homem, nem como mulher. Veja bem: esse ainda é um processo em construção, que não encontra nem sequer consenso entre os pares, muito menos adesão da população geral. Logo, para todos os efeitos, a Linguagem Neutra poderia ser encarada como mais um socioleto, a exemplo do que foi o Miguxês em 2007.

No entanto, alguns governantes pensam diferente. Estados como Rondônia e Santa Catarina proibiram a variante neutra em escolas. Já a Secretaria de Cultura do governo federal vetou a linguagem em projetos da Lei Rouanet. Até parece que essas administrações públicas enxergam uma ameaça ao “bom português”, como se a mera discussão sobre neutralidade de gênero anulasse a hegemonia da norma culta ou prejudicasse o ensino.

Ora, se as autoridades estivessem tão preocupadas com a integridade de nosso idioma, também cortariam o “bora votar” da Justiça Eleitoral ou os regionalismos de filmes e novelas. Talvez até tivessem prestigiado a reinauguração do Museu da Língua Portuguesa, um lugar para aprender – quem diria! – sobre as transformações do vocabulário e da gramática ao longo dos séculos.

Convenhamos, o que está em jogo não tem cunho pedagógico nem acadêmico. É uma mera tentativa de invisibilizar pessoas que já foram marginalizadas por muito tempo em nossa sociedade. E isso tem nome: censura.

Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista e Dr. em Ciências da Comunicação, de Taquara
[Leia todas as colunas]

>> Deixe sua opinião:
Os artigos publicados no site da Rádio Taquara não refletem a opinião da emissora. A divulgação atende ao princípio de valorização do debate público, aberto a todas as correntes de pensamento.
Participe: jornalismo@radiotaquara.com.br