Penso, logo insisto
Esta postagem foi publicada em 1 de março de 2013 e está arquivada em Penso, logo insisto.

Assim seja

Do meu tuíter @Plinio_Zingano – Acho que não sou muito popular. As únicas mensagens que meu celular recebe são propagandas de “junte-se a nós e tenha mais amigos”.

ASSIM SEJA

Tenho grande dificuldade de entender certas articulações parolares. Você captou o que eu quis dizer com esta minha articulação vernácula ou achou parolar demais? Se entendeu, obrigado, pois inventei a locução agora ao escrever este texto. Isto significa que estamos vibrando no mesmo nível de energia (aliás, esta é outra articulação – muito usada por aí –, principalmente, quando não se sabe bem o que deve ser dito, mas a gente quer entrar num clima, assim… sei lá, saca?). No meu dicionário digital Aulete, o verbete “parolar” não existe ainda. Entretanto, dei uma pesquisada em outros dicionários disponíveis na internete e encontrei, como supunha, “parolar”. Lá, apenas como verbo. Eu, usando das premissas permitidas pelo idioma, usei como adjetivo (tal como “capitular”, verbo, substantivo e adjetivo).
Se você não compreendeu minhas palavras acima, então, aí sim, estamos no mesmo barco em relação à língua pátria, diante dessas bobagens vistas e ouvidas, diariamente, pelo rádio, televisão ou Facebook.
Dentre tantas bobagens, destaco uma. Ela vai me levar à loucura. Tornou-se moda, neste início de segunda década do século, no Brasil, alguém desejar “um abençoado ano”, “um abençoado dia”, “um abençoado” não sei mais o quê. Era uma fórmula já usada em saudações mais, digamos, santificadas. Agora, não! Por qualquer toma lá, dá cá, sai um “abençoado”.
Qual, realmente, o significado disso? Na verdade, não tem qualquer significado. É mais ou menos como o “te cuida”, tantas vezes empregado nas mais diversas situações sociais e, creio, introduzida pelas dublagens dos filmes americanos. Se a intenção do falante fosse, realmente, dar um conselho útil ao interlocutor, deveria ser feita em outra circunstância, numa situação apropriada e não numa rápida saudação de despedida. Observações de tal magnitude, se sinceras, devem ser feitas mais formalmente, alertando sobre os possíveis danos à integridade de quem não se cuida, dissertando sobre todos os possíveis perigos à espreita daquele que descuida de sua integridade.
Claro, conheço o significado de “abençoar”. O que me escapa é alguém desejar um dia, um almoço ou um sono com essa característica. Uma língua é feita de expressões, a maioria, conotativas, mas, vamos lá, há coisas das quais não devemos abusar. Seu uso excessivo as torna chatas. Será que alguém se imagina abençoado só por usar essas palavras sem nenhum controle? Provavelmente sim! Além do vício vocabular, neste caso específico, quem pronuncia a fórmula está tentando alertar o seu Deus – “olhai, Senhor!, eu tenho bons sentimentos, não vos esqueçais de mim”.
Vamos lá! Paremos com isso! Se todos queremos a mesma coisa, por que incomodar os outros e, principalmente, Deus, com o excesso dessas manifestações? Nós todos (epa!) somos pessoas de boa índole e desejamos o bem-estar de todos os semelhantes. Não precisamos repisar essas fórmulas parolares. Sejamos todos abençoados!
Se não pararem, passarei a contra-atacar, sempre, com o chatíssimo “beijo no coração”!

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