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Esta postagem foi publicada em 17 de agosto de 2012 e está arquivada em Penso, logo insisto.

Atores

Do meu tuíter @Plinio_Zingano – Não é que as academias de ginástica deixem pessoas mais bonitas! É que pessoas bonitas frequentam mais as academias de ginástica.

ATORES

As pessoas que gostam da SuperNanny, o programa de televisão, no SBT, talvez não se tenham dado conta de um detalhe, só detectável por quem não tem paciência para assistir ao xou propriamente dito. É coisa de gente chata que fica procurando detalhes só para incomodar. Bem, não tanto para incomodar, mas para tirar conclusões nada psicológicas. Claro, neste caso, estou falando de mim. E, também, aprofundando a referência citada, não só da Nanny. Existem muitas outras apresentações televisivas enquadradas no mesmo naipe; são os famosos “reality shows”. Minha menção à babá (“nanny”, do inglês) é apenas um exemplo!
No Súper, vemos o desenrolar da vida diária numa casa qualquer de uma cidade qualquer. A estrela (Nanny) apresenta casos de mau comportamento de algum filho do casal. Vemos situações escalafobéticas, levando, geralmente a mãe, quase à loucura dada a falta de educação do principezinho. São crianças totalmente destemperadas a quem a babá, usando psicologia infantil, transforma em anjos. Não quero comentar esse poder de, em pouco tempo, mudar o perfil comportamental de uma criança. Põe competência nisso! O aspecto a ser tratado é outro.
Para ter o material do programa, a emissora coloca dentro da casa um cinegrafista, registrando imagens, pois se nota que poucas câmeras são fixas. Elas acompanham os participantes em várias das situações apresentadas. E, aqui, chegamos ao busílis. Se o desempenho apresentado pelas pessoas é verdadeiro, temos diante de nós excelentes projetos de atores. Nem projetos! Eu diria atores já refinados. Ninguém olha para a câmera e acha normal o fato de terem, ali, alguém de fora. Inclusive as crianças. O pessoal age muito naturalmente.
Partindo daí, estendo meu comentário a outras situações semelhantes na tevê e tiro a seguinte conclusão: de repente, todos representamos. A intromissão da tevê, essa “big sister”, em nosso cotidiano, revelou uma plêiade de novos seguidores das musas gregas Melpômene e Tália, respectivamente, símbolos da tragédia e da comédia na Grécia Antiga.
Na verdade, todos querem ser televisionados. Recorde-se, por exemplo, das imagens nos estádios onde haja um telão. É uma festa quando os espectadores se percebem nele devido ao passeio das câmeras. A imagem veiculada deslancha a interpretação. Todos representam. A TV Globo tem uma intervenção numa de suas atrações que incita o beijo. Basta a consciência da veiculação para as cenas de amor eterno começarem, com pessoas rindo e acenando estupidamente para uma grande plateia enquanto cumprem seu papel. O importante é se saber transmitido.
As condições tecnológicas conduzem esse arroubo artístico. À terrível sociedade imaginada por George Orwell, somou-se a facilidade criada pela informática. Estamos acostumados a fotografias e filmes, criados em equipamentos que cada um pode ter no bolso, conseguidos a um preço acessível e fáceis de serem operados. Os feicebuques e orcutes nos tornaram, mais do que atores, produtores de material para veiculação midiática. Não há mais privacidade nessa busca dos 15 minutos de fama previstos por Warhol.

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