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Esta postagem foi publicada em 15 de fevereiro de 2021 e está arquivada em Miscelânea.

BBB: um retrato social, por Ana Baldo Sosa

BBB: UM RETRATO SOCIAL

Basta abrirmos nossas redes sociais e nos deparamos com uma infinidade de postagens relacionadas ao tema mais em voga dos últimos dias: Big Brother Brasil. À parte o debate sobre ser ou não um programa que devemos assistir, há um fato importante que é preciso destacar: o BBB é um reflexo de nossa realidade. É um espelho de nossa sociedade. É uma mostra dos comportamentos vistos por nós em nosso dia a dia. Um programa de entretenimento que gera discussões nos mais diversos níveis. Sua veracidade ou ser apenas uma “atuação” dos participantes; fatos da realidade nacional seriam mais importantes do que a vida de 21 desconhecidos, semi-famosos e famosos; assistir ao programa te tornaria menos culto ou letrado; e mais um sem fim de opiniões geradas pelo grande irmão. Mas, para além dessas contendas, o BBB é um retrato social, e isto é fato.

Todos conhecemos em nosso dia a dia uma pessoa como o Lucas, ou como a Karol, ou como a Juliette. Todos conhecemos alguém cujos comportamentos se assemelham aos de Lumena. Todos conhecemos ou mesmo somos a réplica perfeita de um dos ou das participantes do programa. Os sentimentos gerados pelos participantes, em quem acompanha a dramaturgia brotheriana, são os mesmos que nossos amigos, vizinhos, colegas de escola ou de trabalho, etc. nos proporcionam. Às vezes nem é preciso assistir o programa, posto que as redes nos informam a cada minuto sobre as novidades e nos atualizam sempre de tudo o que acontece; os grupos de WhatsApp debatem os últimos acontecimentos; as conversas banais acabam levando muitas vezes à matéria da “casa mais vigiada do Brasil”.

Esses sentimentos, pelos quais somos tomados quando entramos em contato com as novidades da casa, são exatamente os mesmos que sentimos quando descobrimos que aquele colega de trabalho tem intenção de nos “passar para trás”; ou quando percebemos que aquele grande amigo decepcionou a gente traindo nossa confiança; ou quando nos deparamos com uma situação de injustiça que nos cega de ódio; ou a impotência de não poder fazer nada contra aquilo que consideramos uma tirania. Foram definidas e definidos, dentro do programa, os heróis e os vilões, o bom e o mau, o mocinho e o bandido. Escolhemos os que merecem ser amados e os que merecem ser desprezados, ou, usando uma palavra do momento, “cancelados”. E tomamos partido, adotamos um lado e nos posicionamos firmemente a favor ou contra este ou aquele.

E não é assim no nosso cotidiano? Na nossa escola, no nosso trabalho, no nosso grupo de amigos? Não apoiamos nossos amigos e detestamos seus inimigos como se fossem nossos? Os que tomaram o lado de Lucas e Juliette, sentem que Karol e Lumena são suas próprias inimigas. Quem nunca se decepcionou com alguém? Assim como muitos fãs se decepcionaram com Projota ou com Nego Di. Não temos em nosso convívio o preconceito demonstrado contra Lucas ao beijar Gilberto e se assumir bissexual? Não temos no nosso convívio o racismo dissimulado, mas nítido que vimos por parte de alguns participantes da casa? Em nosso dia a dia não temos aquela amiga que só dorme, estilo Pocah, ou aquele conhecido que de vez em quando dá uns “golpes” por aí como o Caio Caloteiro?

Todos conhecemos alguém que tenha as mesmas características que algum dos participantes da casa, podemos, até mesmo, sermos nós um deles. Tal qual observamos no programa comportamentos e modos de agir, também os vemos em nosso cotidiano. Ver ou não ver o programa não nos define, não aumenta nem diminui pessoa alguma. Faço um aparte aqui para destacar que eu, por exemplo, não assisto ao programa, acompanho pelas redes sociais através de postagens de amigos e amigas, e já me é suficiente para compreender que, tal qual na casa do BBB, aqui fora as coisas se sucedem de forma muito parecida. Nosso país inteiro é um imenso BBB, com heróis e vilões, gente tóxica, gente humana, gente sensível, gente que nem sei se podemos chamar de gente; enfim, uma miscelânea de “gentes”. Na casa, como aqui fora, nossos níveis de tolerância são quase nulos e nossa visão sempre acaba tendo lado. Aqui fora, como na casa, nossas vontades devem prevalecer sobre a do outro. Me arrisco a afirmar que o BBB, se bem trabalhado, pode ser uma fonte riquíssima de autoavaliação e autocrítica. Não dizem que o que reparamos no próximo, diz mais sobre nós do que sobre ele?            

Afirmo, com quase convicção, que nem é necessário assistir ao programa global, pois temos um BBB nosso de cada dia aqui fora, ao nosso redor, às vezes até mesmo em nossas próprias casas. O problema é que aqui fora não temos eliminação!

Por Ana Baldo Belchior Sosa
Professora, de Taquara
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