Paralelas
Esta postagem foi publicada em 29 de novembro de 2013 e está arquivada em Paralelas.

Cacarejando

roseli santosEstamos sendo rastreados, cobrados, seguidos, observados, invejados, amados, idolatrados e odiados. Tudo isso ao mesmo tempo, em tempo real. Não me refiro à espionagem virtual em órgãos governamentais denunciada ou descoberta recentemente, ameaçando a nossa soberania nacional. Falo da nossa própria soberania pessoal, do nosso direito a não ser descoberto, localizado ou, até mesmo, de ser ignorado momentaneamente.
Hoje, está difícil desaparecer ou dar uma sumidinha por algumas horas, quanto mais por alguns dias. Sempre tem alguém que descobre teu celular ou teu e-mail ou deixa um recado no Facebook ou te manda um torpedo ou sei lá mais o quê. Sempre!!! Sabem o que é isso? O inferno, lógico.
É tanta informação, tanto convite para tudo, tantos recados “urgentíssimos” que eu nem sei como alguém ousa pensar que um dia, e nem faz tanto tempo assim, sobrevivemos sem essa parafernália toda. Nada era tão urgente, sempre se dava um jeito de falar com a pessoa, nem que fosse por sinais de fumaça, mas ninguém morria sem responder instantaneamente uma resposta ou um recado.
Hoje, se não dermos retorno “agora” (e isso é agora mesmo, não daqui a cinco minutos); se não estivermos online 24 horas; se só vemos um mês depois aquela foto que a criatura postou de si mesmo no Facebook daquele prato maravilhoso de qualquer coisa que estava saboreando não sei em que lugar, já somos considerados desaparecidos. Só falta colocar aqueles cartazes nos postes dizendo “Procura-se”, diante de tanto descaso de nossa parte com os cidadãos apressados e conectadíssimos, desse mundo urgente, urgentíssimo, de gente agitada e estressadíssima, que quer tudo ao mesmo tempo.
Dia desses ouvi a frase: “Não basta pôr o ovo, tem que cacarejar” e me dei conta de que estamos cacarejando demais. Qualquer ovinho de nada gera um barulho daqueles. E ai de quem não curtir ou não cacarejar junto. Já fui até cobrada recentemente por uma pessoa querendo saber por que eu não tinha curtido mais nada dela no Facebook. Nossa, pensei, deixei de cacarejar uns dias e já sou intimada a colocar meus ovos para comprovar que estou viva. Então, tá, né?
Ando intrigada com tanto ruído, com tanta desconexão, com tanto distanciamento, por mais paradoxal que isso possa parecer diante desse mundo virtualmente poderoso. O galinheiro anda tão atiçado e tão barulhento que eu opto, na maioria das vezes, pelo gesto mais simples que tem para me reconectar comigo mesma e com os meus amigos.
Basta desligar o computador, fazer um jantar regado a vinho e música, caminhar na praia ou simplesmente chamar um amigo para dar boas risadas no bar da esquina. Sem internet e instagram no celular, claro, para não correr o risco de dar uma cacarejada.
Se nada disso funcionar, resta a opção de “dormir com as galinhas”. E acordar bem cedinho, com o canto do galo nos chamando para recomeçar tudo de novo.

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