Todos os dias, uma montanha de papel continua se acumulando dentro de todas as caixas de correio do meu prédio e, creio eu, da cidade inteira. Impossível não falar novamente sobre este assunto, que eu já tinha abordado aqui, mas que está cada vez mais difícil de ser contornado ou eliminado ou resolvido. Simplesmente, recebo dezenas, centenas, sei lá quantos folders, folhetos, revistinhas e uma série de outras propagandas que enchem a minha caixa de correio e, literalmente, a minha paciência.
Precisa colocar cinco, seis exemplares publicitários do mesmo estabelecimento só na minha caixa de correspondência (sem falar na dos outros moradores), especialmente aquelas propagandas com promoções de supermercados, se um só bastaria para eu saber (e acontece que eu nem quero saber) dos preços baixos e imbatíveis das promoções da semana? Precisa deixar cair metade disso tudo na calçada ou ser atirado ali por pessoas mal educadas que têm preguiça de, até, depositar o material no lixo? Precisa esse abuso antiecológico para incentivar o consumo que beira o colapso e a falta total de bom senso?
Dia desses, ainda flagrei uma moça depositando esses folhetos nas caixas, doida para se livrar da tarefa, socando tudo do jeito que dava, sem ter a menor consciência do que aquilo significava, ao menos para mim, indignada que ando com esse abuso sem fim. Acho que chegamos ao limite do desperdício de dinheiro, de árvores, de consumismo desenfreado, enfim. É o fim…ou quase!
Fico com a estranha sensação de estar batendo na mesma tecla, de falar para as paredes, já que a maioria das pessoas parece aceitar tudo tão pacificamente, sem o menor questionamento, olhando com desinteresse a pilha de papéis que se acumula no chão do saguão do prédio onde elas próprias moram. Pode?
Poder não pode, mas alguém se importa se isso tudo vai ralo abaixo com a primeira chuva entupir os bueiros que provocarão as enchentes que, aí sim, todos reclamarão quando a água bater na porta das suas casas? Sei que o clima é de Natal e, talvez por isso mesmo, seria bom ficarmos mais atentos e tentar auxiliar contra o desperdício e a sujeira da cidade onde moramos. Já que não conseguimos ainda impedir que coloquem coisas que nunca solicitamos (e não são multas de trânsito) na nossa caixa de correio, quem sabe podemos protestar contra, jogando tudo na lixeira para reciclagem, olhando com outros olhos o que nos cerca.
E se este é o planeta que nos abriga, antes que ele acabe de verdade, nada mais justo do que cuidar do que é de todos, embora muitos se julguem, literalmente, os “donos do mundo” e pouco se importem com a finitude dos bens não renováveis, como a água, que ainda jorra abundante em suas torneiras.
Os papéis que lotam nossas caixas de correspondência são apenas um exemplo de desperdício que cito para dizer o quanto há de alienação diante do óbvio, da degradação ambiental e moral que permeia todas as esferas. E não adianta reclamar do calor insuportável, dos temporais, das enchentes, da roubalheira, do vizinho, da corrupção e de tudo o que está aí diante dos olhos de todos, enquanto a maioria se faz de desentendida, ignorando as evidências de que há alguma coisa de podre neste reino. Resta torcer que, se o mundo não acabar dia 21, ainda dê tempo para acreditarmos em um ano novo, com a caixa lotada, talvez, mas de novas possibilidades para o único lar que conhecemos até o momento e que nos sustenta, apesar de cuspirmos, muitas vezes, no prato em que comemos.
Roseli Santos
Jornalista


