Caixa Postal 59
Esta postagem foi publicada em 24 de abril de 2009 e está arquivada em Caixa Postal 59.

CAIXA POSTAL 59

NA ESTAÇÃO
Uma estação rodoviária sempre foi e sempre será abrigo de muitas vidas. Sorrisos na chegada, lágrimas na despedida. Leva esperança, traz alegrias, despacha tristezas, embarca viagens e sonhos, transporta emoções, carrega possibilidade de encontros e encurta distâncias.
Observo o movimento da rodoviária em Taquara, como há muito tempo não fazia, e descubro que logo este fluxo intenso, pulsando no coração da cidade, migrará para outro lugar. O que não é uma ação de todo ruim, dependendo do ponto de vista, já que desafogará as ruas centrais do intenso tráfego pesado dos ônibus. Ainda assim, não consigo imaginar as imediações da Praça da Bandeira sem o corre-corre diário. Por ali transitam centenas de pessoas por dia, há anos. E não há um taquarense sequer que não tenha utilizado (em algum ou em muitos momentos da sua vida) o transporte coletivo em direção ao trabalho, à faculdade, para visitar um parente ou dar uma escapadinha para ver o namorado na cidade vizinha.
Poucos minutos no local são suficientes para ver o fluxo aumentando, atordoando e deixando no ar o cheiro característico de óleo da descarga dos veículos, do tradicional pastel da rodoviária (quem não experimentou?), do perfume da jovem que passa, do suor do operário. É o vai-e-vem, unindo histórias de adultos, jovens, crianças e idosos. Diferentes classes sociais se cruzam em direção ao mesmo destino. Todos juntos “na plataforma desta estação que é vida”, lembra a canção interpretada por Milton Nascimento.
Olhares que esperam pacientemente a saída ou a chegada; que aguardam ansiosos pelo embarque; que ignoram e perdem a noção do tempo (e o ônibus); que flertam; que querem o movimento; que se confundem com a inércia do banco em frente ao box de estacionamento.
E, a cada partida, o desejo de irmos também. Em cada chegada, a esperança do retorno. Em cada estação de embarque, a mesma condição humana ansiando por ir além, ultrapassar divisas, romper fronteiras, jogar-se ao desconhecido como nômades. O homem e sua eterna insatisfação, mola propulsora que o leva a desbravar novos caminhos, a revisitar o passado, a matar a saudade longe daqui, a retornar para o aconchego do lar.
Ir ou vir, ficar ou avançar, partir ou chegar. O coração andarilho de Taquara vai pulsar mais forte em outro lugar, um pouco mais distante do centro, mas levando para lá os mesmos anseios, as mesmas histórias de vida, o mesmo desejo de todos nós de encurtarmos distâncias e de embarcar em viagens e sonhos, desembarcar tristezas, transportar emoções, etc, etc. E como na letra da música, quem fica poderá cantarolar em silêncio: …”Mande notícias do mundo de lá…”.
Roseli Santos

Jornalista

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