Bem na foto
O registro fotográfico sempre foi – e sempre será – uma das maneiras mais fiéis de preservarmos a memória dos acontecimentos. Hoje, mais do que nunca, a captação de imagens se popularizou, tanto pelas facilidades oferecidas para a compra de uma câmera, por exemplo, quanto pelo processo de divulgação imediata do que é registrado.
Claro que isso é fantástico, mas tenho observado que já não se “olha” mais verdadeiramente para as coisas antes de registrá-las, seja na memória, seja em fotografia. As pessoas simplesmente saem fotografando tudo, indiscriminadamente, e se esquecem literalmente de “ver” o que está acontecendo por medo de perder a imagem. Já repararam nisso?
Basta uma apresentação do filho na escola que os pais simplesmente saem histéricos, espocando o flash para todos os lados, na expectativa de reter tudo o que está acontecendo. Esquecem, no entanto, da coisa mais preciosa naquele instante, que seria, talvez, olhar nos olhos daquela criança que procura afoita para ver a reação dos pais diante da sua performance, e que está pouco se importando, naquele momento, se sairá bem na foto.
Novos e tristes tempos, me parece, em que “olhar” não significa necessariamente ver; em que “estar” já não importa tanto quanto comprovar a presença em imagem; em que vale mais um registro digital do que uma emoção verdadeira.
Obviamente que a fotografia ajuda a congelar lindos momentos, mas precisa esse exagero? Não seria melhor pararmos um pouco antes de dispararmos os flashes, como fazíamos com as câmeras analógicas, pensando um pouco antes de enquadrar, de focar, de fotografar, para retermos apenas o essencial, o instante mágico que ficará para a posteridade?
A rapidez com que se quer tudo, imediatamente, atropela o melhor da vida, encurta a caminhada, amarela as fotos antes do tempo. Melhor seria curtirmos o trajeto mais lentamente, olhando, observando e revelando calmamente cada momento, como se fazia nos antigos laboratórios fotográficos, com o papel mergulhado em bacias de produtos químicos, antes de se tornarem fotografias. Quando a gente menos esperava, em segundos, surgia a imagem grafada em luz na folha branca, descortinando surpresas e a beleza de um fato único que não se repetirá, como a nossa passagem por aqui.
Roseli Santos
– Jornalista –
Esta postagem foi publicada em 4 de setembro de 2009 e está arquivada em Caixa Postal 59.


