Caixa Postal 59
Esta postagem foi publicada em 22 de janeiro de 2010 e está arquivada em Caixa Postal 59.

CAIXA POSTAL 59

Coisas e coisas
Há pessoas que idolatram suas “coisas”. Já repararam nisso? Gente que não consegue se desapegar do concreto, do material, do palpável. Daquilo que elas acreditam ser o centro do universo, incluindo seus próprios umbigos, suas próprias vidas como única “coisa” importante no universo.
Essa gente está tão preocupada com as coisas que tem, que não tem ou que os outros têm, que acaba se fundindo em algo estranho, quase a coisa em si, de tão superficial. É até possível ouvir seus diálogos interiores, seus anseios, suas necessidades transmutadas em coisas, qualquer coisa.
Conheço algumas pessoas que são a cara de seus móveis, de suas roupas, de seus sapatos. Amam suas mesas e cadeiras como a si mesmas e acabam se tornando a imagem e semelhança de seus objetos de estimação. Abstração é uma palavra e um sentimento que elas desconhecem, ignorando o que há de realmente humano em todos nós (ou quase todos).
Às vezes, fico observando algum desavisado envolto em suas coisas e vejo nele a solidão de um poste, de uma estátua no canto da sala, de um vaso abandonado no jardim. É possível ver até a cor do objeto a que se assemelha a criatura, tal o tamanho de sua coisificação. São tão engraçados, falando de suas coisas, como se isso fosse capaz de substituir sentimentos concretos, emoções verdadeiras, satisfação real. “A minha mesa, o meu fogão, o meu freezer”… Relatam suas aquisições materiais recentes em detalhes como conquistas e troféus a serem exibidos para os outros, de uma relevância extrema, de uma urgência exibicionista que beira o ridículo.
Tempos de consumo fácil, em que qualquer um, sem qualquer consciência da fugaz importância e do lugar que as coisas realmente devem ocupar na nossa vida, acaba se tornando o próprio objeto que idolatra, a cara de sua mesa, de suas cadeiras, de seus tapetes. E alguns desabam no chão, literalmente, tombados pelo peso de tanta futilidade, frieza, tristeza e solidão, que já não é mais possível identificá-los, transformados nas coisas que os cercam, engolidos e massacrados por elas.
Deixem seus armários, seus sofás, seus espelhos, suas louças, seus cristais para lá, no lugar que lhes cabe de direito, como coisas que realmente são. Respirem alegria, expirem sorrisos, comprem ilusão, acumulem amor, financiem amizade em longas parcelas e adquiram felicidade duradoura. O resto é ilusão.
Roseli Santos

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